"Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência..."

Teologia bíblica da contextualização

"A conciliação entre a Teologia e a Missiologia"

Neste capítulo tenciono abordar a contextualização sob uma perspectiva teológica, seus objetivos e limitações, sua relevância e perigos. Defenderei a conciliação entre a Teologia e a Missiologia, a relevância da Antropologia Missionária e por fim apresentarei alguns critérios bíblicos para a contextualização.

Quando Hesselgrave afirma que contextualizar é tentar comunicar a mensagem, trabalho, Palavra e desejo de Deus de forma fiel à Sua Revelação e de maneira significante e aplicável nos distintos contextos, sejam culturais ou existenciais, ele expõe um desafio à Igreja de Cristo: comunicar o Evangelho de forma teologicamente fiel e ao mesmo tempo humanamente inteligível e relevante. E este talvez seja o maior desafio de estudo e compreensão quando tratamos da teologia da contextualização. Historicamente, a ausência de uma teologia bíblica de contextualização tem gerado duas consequências desastrosas no movimento missionário mundial: o sincretismo religioso e o nominalismo evangélico.

Antes, porém, gostaria de expor introdutoriamente sobre a relevância da contextualização na apresentação do Evangelho com base em Mateus 24:14. Ali Jesus se reunia com seus discípulos, pouco antes de ser elevado aos céus, e responde a estes sobre os sinais que antecederão a sua vinda. Após dissertar sobre evidências mais cosmológicas (guerras e rumores de guerras) e eclesiológicas (perseguição e falsos profetas) Jesus lança uma evidência puramente missiológica dizendo que “será pregado o Evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim”.

A expressão grega para “e será pregado”[i] tem como raiz kerygma, uma proclamação audível e inteligível do Evangelho paralelamente à martyria[ii] que evoca um sentido mais pessoal, de testemunho de vida. Esta ação kerygmática aponta para o fato de que o Evangelho será pregado de forma compreensível. O “mundo” aqui exposto no texto é a tradução de oikoumene que significa “mundo habitado”. A idéia textual, portanto, não é geográfica, territorial, mas sim demográfica, onde há pessoas, mostrando que este Evangelho do Reino será pregado kerygmaticamente, inteligivelmente, em todo o mundo habitado. A forma de isso acontecer, segundo o texto, é através do testemunho a todas as nações. A raiz para “testemunho” aqui é martyria que nos ensina que esta ação proclamadora, kerygmática, do Evangelho acontecerá através de uma Igreja martírica, que tenha o caráter de Cristo. Ou seja, apenas os salvos pregarão este Evangelho do Reino. Finaliza a frase dizendo que o testemunho chegará a todas a nações, onde traduzimos o termo ethnesin, de ethnia, para nações, ou seja, grupos lingüistica e culturalmente definidos. Poderíamos parafrasear o verso 14 dizendo que “o Evangelho do Reino será proclamado de forma inteligível e compreensível por todo o mundo habitado, através do testemunho martírico, de vida, da Igreja, a todas as etnias definidas”. A frase final nos diz que “então virá o fim” e “fim” aqui (telos) aponta para a volta do Senhor Jesus, ligada comumente à sua parousia, seu retorno.

Gostaria de chamar sua atenção para o princípio bíblico da comunicação. Jesus nos ensina diversas vezes que a transmissão do conhecimento do Evangelho não será uma ação realizada sem a participação comunicativa da igreja. Esta participação envolve duas ações principais: a vida e testemunho da Igreja, bem como a atitude de proclamar, expor, o Evangelho de Cristo. Esta comunicação do Evangelho, portanto, em uma perspectiva transcultural, necessita de um trabalho de “tradução” em duas áreas específicas: a língua e a cultura. As línguas dispõem de códigos diferentes para viabilizar a comunicação e o mesmo ocorre com a cultura. Quando se expõe a um Inuit, ou esquimó, que o sangue de Jesus nos torna branco como a neve, ele rapidamente nos perguntaria qual categoria de branco, já que em sua visão culturalizada de quem convive com a neve e o gelo por milênios, há treze diferentes tipos de “branco”. Ignorar tal extrato cultural culminará em uma pregação rasa ou distorcida da Palavra de Deus.

Alguns princípios textuais podem nos ajudar nesta introdução, pensando em Mateus 24:14. Percebemos que a transmissão de uma mensagem inteligível em sua própria língua e contexto, portanto contextualizada, é pressuposto para o cumprimento da grande comissão, já que a nós cabe não somente viver Jesus, mas também proclamá-lO de forma compreensível. Apenas a Igreja, redimida, cumprirá esta tarefa, ou seja, não é o Cristianismo que evangelizará o mundo mas sim a Igreja redimida, que passou pelo novo nascimento.

Tendo em mente estes conceitos permitam-me mencionar alguns pressupostos que utilizo ao escrever este capítulo.

1. A Palavra é supracultural e a-temporal, portanto viável e comunicável para todos os homens, em todas as culturas, em todas as gerações. Cremos, assim, que a Palavra define o homem e não o contrário.

2. Contextualizar o Evangelho não é reescrevê-lo ou moldá-lo à luz da Antropologia, mas sim traduzi-lo lingüística e culturalmente para um cenário distinto a fim de que todo homem compreenda o Cristo histórico e bíblico.

3. Apresentar Cristo é a finalidade maior da contextualização. A Igreja deve evitar que Jesus Cristo seja apresentado apenas como uma resposta para as perguntas que os missionários fazem – uma solução apenas para um segmento, ou uma mensagem alienígena para o povo alvo.

O conceito da contextualização evoca toda sorte de sentimentos e argumentações. Por um lado encontramos a defesa de sua relevância, com base na culturalidade e princípios gerais da comunicação. Crê-se, de forma geral, que sem contextualização não há verdadeira comunicação e aqueles que assim entendem procuram estudar as diversas possíveis abordagens nesta comunicação contextualizada. Por outro lado encontramos a exposição de seus perigos quando esta contextualização se divorcia de uma teologia bíblica essencial que a norteie e avalie. Isto é especialmente verdade tendo em mente que o próprio termo “contextualização” foi abundantemente utilizado no passado por Kraft a partir do relativismo de Kierkegaard com fundamentação em uma teologia liberal que não cria na Palavra de Deus de forma dogmática, mas sim adaptada. Creêm que a Palavra de Deus se aplica apenas a contextos similares de sua revelação, não sendo assim supracultural e nem a-temporal. Nossa proposta é entendermos que a contextualização não é apenas possível com uma fundamentação bíblica que a conduza, mas necessária para a fidelidade na transmissão dos conceitos bíblicos.

É preciso avaliarmos nossos pressupostos teológicos a fim de guiarmos nossa ação missionária. Martinho Lutero, crendo na integralidade da verdade Bíblica, expôs um Evangelho que fosse comunicável, na língua do povo, com seus símbolos culturais definidos, porém um Evangelho escriturístico e sem diluição da verdade. Sem receio, por diversas vezes ensinou Melanchton dizendo: “prega de forma que odeiem o pecado ou odeiem a você”. Se por um lado defendeu uma contextualização eclesiológica traduzindo a Bíblia para a língua do povo, tendo cultos com a participação dos leigos, pregando a Palavra dentro do contexto da época, por outro deixou claro que o conteúdo da Palavra não deve ser limitado pelo receio do confronto cultural. Se sua sensibilidade cultural fosse definidora de sua teologia, e não o contrário, teríamos tido uma Reforma humanista e não da Igreja. Teria sido o início de um movimento de libertação apenas do pensamento e da expressão, um grito por justiça social que não inclui Deus e nem a salvação, ou um apelo pelo resgate da identidade cultural, mas não a condução do povo ao Reino de Deus.

Os mais evidentes perigos de pressupostos de Contextualização

Antes de seguirmos adiante gostaria de expor três perigos fundamentais quando tratamos da contextualização dentro do universo missionário.

O primeiro perigo, que é político, tem sua origem na natural tendência humana de impor a outros povos sua forma adquirida de pensar e interpretar, prática esta realizada em grande escala pelos movimentos imperialistas do passado e do presente, bem como por forças missionárias que entenderam o significado do Evangelho apenas dentro de sua própria cosmovisão, cultura e língua. Desta forma as torres altas dos templos, a cor da toalha da ceia, a altura certa do púlpito e as expressões faciais de reverência tornam-se muito mais do que peculiaridades de um povo e de uma época. Misturam-se com o essencial do Evangelho na transmissão de uma mensagem que não se propõe a resgatar o coração do homem mas sim moldá-lo à uma teia de elementos impostos e culturalmente definidos apenas para o comunicador da mensagem, apesar de totalmente divorciados de significado para aqueles que a recebem.

As conseqüências de uma exposição política do Evangelho tem sido várias, porém mais comumente encontraremos o nominalismo, em um primeiro momento e, por fim, o sincretismo quase irreversível. David Bosch afirma que o valor do Evangelho, em razão de proclamá-lo, está totalmente associado à compreensão cultural do povo receptor. O contrário seria apenas um emaranhado de palavras que não produziriam qualquer sentido sócio-cultural. George Hunsburger observa também que não há como pregarmos um Evangelho a-cultural, pois o alvo de Cristo ao se revelar na Palavra foi atingir pessoas vestidas com sua identidade humana. A perigosa apresentação política do Evangelho a que nos referimos, portanto, confunde o Evangelho com a roupagem cultural daquele que o expõe, deixando de apresentar Cristo e propondo apenas uma religiosidade vazia e sem significado para o povo que a recebe.

Um segundo perigo, que é pragmático, pode ser visto quando assumimos uma abordagem puramente prática na contextualização. Como a contextualização é um assunto freqüentemente associado à metodologia e processo de campo, somos levados a entendê-la e avaliá-la baseados mais nos resultados do que em seus fundamentos teológicos. Conseqüentemente, o que é bíblico e teologicamente evidente se torna menos importante do que aquilo que é funcional e pragmaticamente efetivo. Estou convencido de que todas as decisões missiológicas devem estar enraizadas em uma boa fundamentação bíblico-teológica se desejamos ser coerentes com a expressão do mandamento de Deus (At 2:42-47). Entre as iniciativas missionárias mais contextualizadas com o povo receptor, encontramos um número expressivo de movimentos heréticos como a Igreja do Espírito Santo em Gana, África, na qual seu fundador se autoproclama a encarnação do Espírito Santo de Deus. Do ponto de vista puramente pragmático, porém, é uma igreja que contextualiza sua mensagem sendo sensível às nuances de uma cultura matriarcal, tradicional, encarnacionista e mística. Devemos ser lembrados que nem tudo o que é funcional é bíblico. O pragmatismo leva-nos a valorizar mais a metodologia da contextualização do que o conteúdo a ser contextualizado. A apresentação pragmática do Evangelho, portanto, privilegia apenas a comunicação com seus devidos resultados e esquece de ater-se ao conteúdo da mensagem comunicada.

Um terceiro perigo, que é sociológico, é aceitar a contextualização como sendo nada mais do que uma cadeia de soluções para as necessidades humanas, em uma abordagem puramente humanista. Esta deve ser nossa crescente preocupação por vivermos em um contexto pós-cristão, pós-moderno e hedônico. Isto ocorre quando missionários tomam decisões baseadas puramente na avaliação e interpretação sociológica das necessidades humanas e não nas instruções das Escrituras. Neste caso os assuntos culturais, ao invés das Escrituras, determinam e flexibilizam a teologia a ser aplicada a certo grupo ou segmento. O desejo por justiça social não deve nos levar a esquecermos da apresentação do Evangelho. Vicedon afirma que somente um profundo conhecimento bíblico da natureza da Igreja (Ef. 1:23) irá capacitar missionários a terem atitudes enraizadas na Missio Dei e não apenas na demanda da sociedade. A defesa de um Evangelho integral e desejo de transmitir uma mensagem contextualizada não devem ser pontes para o esquecimento dos fundamentos da teologia bíblica.

Teologia e Contextualização

O presente embate mundial entre teologia e contextualização é possivelmente um reflexo do divórcio no ensino entre missiologia e teologia. Para alguns a missiologia é vista como simplista teologicamente, e consequentemente varrida para fora dos centros acadêmicos e de preparo teológico em diversas partes do mundo, ou mesmo tratada como de menor valor.

Este terrível engano freqüentemente produz pastores sem sonhos, missionários despreparados e teólogos cujo conhecimento poderia ser grandemente usado para as necessidades diárias de uma Igreja que está com as mãos no arado, mas por vezes não sabe para onde seguir.

Missiologia e Teologia não devem ser tratadas como áreas separadas de estudo, mas sim como disciplinas complementares. A Teologia coopera com a Igreja ao fazê-la entender o sentido da Missão e a base para a contextualização do Evangelho. A Missiologia, por sua vez, dirige teólogos para o plano redentivo de Deus e os ajuda a ler as Escrituras sob o pressuposto de que há um propósito para a existência da Igreja.

Na ausência de um estudo teologicamente sadio sobre a contextualização bíblica, vários segmentos da Igreja ao longo da história foram influenciados pelo liberalismo teológico que encontrou na contextualização uma fácil apresentação de seus valores.

Soren Kierkegaard, com seu relativismo pragmático, propôs o entendimento da verdade a partir da interpretação individual, sem conceitos absolutos e dogmáticos. Willian James em 1907 lançou a base para o “movimento de contextualização filosófica e teológica” defendendo a atualização teológica a partir da necessidade sócio-cultural ou lingüística. Na mesma linha Rudolf Bultmann defendeu a contextualização filosófica do Evangelho mitificando tudo aquilo que não fosse relevante ao homem moderno em seu próprio contexto. Estes e outros pensadores influenciaram a base conceitual da contextualização desenvolvendo uma nova proposta: não há verdade dogmática, supracultural e cosmicamente aplicável. A verdade é individual e como tal deve ser compreendida e aplicada de acordo com o molde receptor.

Esta influência dicotomizou o mundo evangélico por décadas e ainda hoje tem seus efeitos enraizados na base conceitual da contextualização, levando alguns segmentos a definir a apresentação do Evangelho apenas a partir do que é aceitável culturalmente. Em uma breve discussão com uma equipe inglesa que atuava entre os Bassaris do Togo, fui apresentado à sua estratégia missionária: ensinar Jesus como aquele que comprou nossa salvação, porém sem sacrifício pessoal, já que o sacrifício pessoal é visto pelos Bassaris como sinal de fraqueza. Esta simples escolha é resultado de uma teologia sociologizada e representação desta tendência pragmatizada que molda a Palavra em prol de uma comunicação mais aceitável comunitariamente.

De forma mais institucional esta vertente foi bem demonstrada na Assembléia Geral do Concílio Mundial das Igrejas, em Upsala, em 1968. Ali, a ênfase na humanização da Igreja permitiu o desenvolvimento do estudo da contextualização mais a partir da Antropologia do que da Teologia. A conferência sobre o “Diálogo com Povos de Religiões e Ideologias Vivas”, em 1977 em Chiang Mai, Tailândia, reforçou também o universalismo e a contextualização como forma de relativização de valores.

O contrapeso teológico deste assunto floresceu de forma mais ampla apenas em 1974 com Lausanne onde, apesar de reconhecer as diferenças culturais, lingüísticas e interpretativas nas diversas raças da terra, afirmou-se que a Palavra era o único mecanismo gerador da verdade a ser anunciada. Sobre evangelização e cultura, o Pacto de Lausanne declara que “afirmamos que a cultura de um povo em parte é boa e em outra parte é má, devido à queda. Por isto deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras, para que possa ser redimida e transformada para a glória de Deus. Diante disto a evangelização mundial requer o desenvolvimento de estratégias e metodologias novas e criativas (Mc 7:8,9,13; Rm 2:9-11; 2Co 4:5)”.

Permitam-me chamar sua atenção para uma inquietante e acertada interpretação de Bruce Nicholls sobre o perigo do sincretismo e nominalismo como conseqüência de uma contextualização existencial sem fundamentação teológica. Ele diz que o sincretismo religioso é uma síntese entre a fé cristã e outras religiões, a mensagem bíblica é progressivamente substituída por pressuposições e dogmas não-cristãos, e as expressões cristãs da vida religiosa de adoração, do testemunho e da ética, conformam-se cada vez mais àquelas da parte não-cristã no diálogo. No fim, a missão cristã é reduzida a uma assim-chamada “presença cristã”, e na melhor das hipóteses, a uma preocupação social humanista. O sincretismo resulta na morte lenta da igreja e no fim da evangelização .

Vicedom nos apresenta um manto de cuidados teológicos para o processo da contextualização. Lembra-nos que, se cremos que Deus é o autor da Palavra e o Criador que conhece e ama sua criação, portanto devemos crer que o Evangelho é dirigido a todo homem. A minimização da mensagem perante assuntos desconfortáveis como poligamia, por exemplo, não coopera para a inserção do homem, em sua cultura, no Reino de Deus. Ao contrário, propõe um Evangelho partido ao meio, enfraquecido, que irá cooperar com a formação de um grupo sincrético e disposto a tratar o restante da Escritura com os mesmos princípios de parcialidade. Hibbert nos alerta de que, no afã de parecermos simpáticos ao mundo (como a Igreja em Atos 2), esquecemos que a mensagem bíblica confrontará as culturas, mostrará o pecado e clamará por transformação através do Cordeiro.

Hesselgrave também previne sobre sobre o perigo de dicotomizarmos a mensagem crendo na Palavra de forma integral para nós, mas apresentando-a parcialmente a outros. Ele nos ensina que o Evangelho é libertador mesmos nas nuances culturais mais desfavoráveis.

O liberalismo teológico de Kierkegaard, Bultmann e James, portanto, ameaça a compreensão bíblica da contextualização, uma vez que leva-nos a crer na apresentação de um Evangelho que não muda (pois toda mudança cultural seria negativa), não confronta (pois a verdade é individual e não dogmática) e não liberta (pois a liberdade proposta é apenas social).

Se cremos que Deus é o autor da Palavra, que o Evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16), e que “a justiça de Deus se revela no Evangelho” (v.17), passaremos a nos preocupar com a melhor forma de comunicar esta Verdade, de maneira inteligível e aplicável, sabendo que, promovendo confrontos e mudanças, é a Verdade de Deus que liberta todo aquele que crê.

Pressupostos bíblicos para a contextualização

Escrevendo aos Romanos (1:18-27) o apóstolo Paulo nos introduz ao conceito da contextualização em oposição à inculturação trazendo à tona verdades cruciais para a proclamação do Evangelho dentro de um pressuposto escriturístico e revelacional.

No versículo 18, Paulo nos apresenta a um Deus irado com a postura humana e que se manifesta contra toda a “impiedade” (quando o homem rompe seu relacionamento com Deus e os Seus valores divinos) e “perversidade” (quando o homem rompe seu relacionamento com o próximo e seus valores humanos). Expõe um homem corrompido pela injustiça e criador da sua própria verdade.

Nos versículos 19 e 20, Deus se manifesta através da criação e há aqui um elemento universal: um Deus soberano, criador, controlador do universo e detentor da autoridade sobre a criação. Os homens citados no verso 18 tornam-se indesculpáveis por ser Deus revelado na criação “desde o princípio do mundo”, sendo revelado tanto o “seu eterno poder”, quanto “a sua própria divindade”. Portanto, perante um homem caído, existente em sua própria injustiça, impiedoso e perverso, Paulo não destaca soluções humanas, eclesiásticas ou mesmo sociais. Ele nos apresenta a Deus. Na teologia paulina a solução para o homem não é o homem, mas é Deus e Sua revelação.

Nos versos 21 a 23, o homem tenta manipular Deus e Sua verdade pois apesar deste conhecimento natural, pela criação, “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”. Fizeram altares e criaram seus deuses segundo seus corações, ânsias e desejos. Deuses manipuláveis, comandados, um reflexo da vontade humana caída. Assim, tais homens se “tornaram nulos em seus próprios raciocínios” mudando “a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis”.

O homem, portanto, não é condenado por não conhecer a história bíblica. Ele é condenado por não glorificar a Deus. Os homens não são condenados por não ouvirem a Palavra, são condenados pelo pecado.

Nos versos 24 a 27, tais homens, em seu mundo recriado com as cores do pecado e injustiça “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador”. A resposta de Deus foi o juízo e o texto nos diz que Ele entregou os homens “à imundícia” como também às “paixões infames”.

Há alguns elementos bíblicos neste precioso texto que nos ajudam a pensar em alguns princípios de contextualização.

1. Há uma verdade universal e supracultural: Deus é soberano e dono de toda glória. Esta verdade fundamenta a proclamação do Evangelho.

2. O pecado intencional (perversidade e impiedade) nos separa de Deus. Não há como apresentar Deus buscando se relacionar com o homem sem expor o pecado humano e seu estado de total carência de salvação.

3. Somos seres culturalmente construtores de ídolos. É comum ao homem caído gerar uma idéia de deus que satisfaça aos seus anseios sem confrontá-lo com o pecado. Esta atitude é encontrada em toda a história humana e não colabora para o encontro do homem com a verdade de Deus.

4. A mensagem pregada por Paulo é contextualizada expondo Deus em relação à realidade da vida e queda humana. Porém não é inculturada, pregando um Deus aceitável, mas sim um Deus verdadeiro. Se amenizarmos a mensagem do pecado contribuiremos para a incompreensão do Evangelho.

Modelo bíblico de contextualização da mensagem

Vejamos o assunto da contextualização a partir da experiência bíblica de Paulo em três momentos específicos. Apesar de Paulo ser o apóstolo para os gentios (Gal. 1:16) ele era um judeu devoto. Desta forma, a partir de seus sermões e ensinos podemos garimpar princípios norteadores da contextualização da mensagem.

Observaremos três passagens bíblicas no livro de Atos nas quais Paulo proclama o Evangelho. Primeiramente a um grupo formado puramente por judeus, em outra ocasião a judeus mas com presença gentílica simpatizante do judaísmo e por fim para gentios totalmente dissociados do mundo judaico e de seus valores vetero-testamentários. Ficará evidente, creio, que Paulo jamais compromete a autenticidade da mensagem bíblica, porém a comunica com aplicabilidade cultural de forma que haja boa comunicação utilizando os elementos necessários para tal.

Em Atos 9:19-22 encontramos Paulo em Damasco com os discípulos proclamando Cristo nas sinagogas apresentando-O como “o Filho de Deus” e “confundia os Judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo”. Aqui encontramos Paulo logo após ser salvo, expondo nas Escrituras que o Jesus que ele perseguia no passado tão próximo era de fato o Filho de Deus. A expressão grega para “demonstrando” (que Jesus era o Messias prometido), no verso 22, implica em demonstração com evidências objetivas, visíveis, o que nos dá a impressão que Paulo o fazia através do próprio texto sagrado, as Escrituras. Sua forma de pregação seguia a mesma dinâmica que ele viria a usar em todo o seu ministério entre os Judeus: demonstrando a partir da comprovação escriturística que Jesus é o Messias esperado (At 17:1-3). Paulo bem sabia que se alguém desejasse mostrar aos judeus que uma pessoa era o Messias, teria que fazê-lo através das Escrituras. Por isso sua abordagem foi baseada nas Escrituras, centralizada na promessa do Messias e promotora de evidências de que este era Jesus. Paulo aqui falava aos filhos de Israel, que se viam como os filhos da Promessa e, portanto, em toda sua pregação ele utilizava elementos históricos e marcos da relação entre Deus e Seu povo escolhido.

Em Atos 13: 14-16, encontramos Paulo “atravessando de Perge para a Antioquia da Pisidia, indo num sábado à sinagoga”. Logo depois ele, erguendo a mão, passou a lhes proclamar a Cristo. Neste texto o grupo, culturalmente definido, é o mesmo de antes: judeus. Havia porém a presença gentílica de simpatizantes da fé judaica. Paulo inicia com um dos principais fatos da história judaica, o Êxodo. Ele então os relembra da história de Israel até Davi quando então, intencionalmente, lhes introduz a promessa do Messias (At 13:23) e a liga a Jesus. Interessante como Paulo neste caso prega a Cristo a partir do “Deus de Israel”, e se fundamenta no Antigo Testamento para lhes apresentar o Messias por saber que os gentios ali presentes não apenas conheciam o Antigo Testamento mas também procuravam segui-lo. Porém sua pregação tem também forte teor moral e escatológico, que a distingue da primeira em Atos 9, apenas para aos judeus, demonstrando sua sensibilidade para um auditório misto, mesmo que prioritariamente judeu e judaizante. No verso 39, Paulo utiliza um texto de inclusão (todo aquele), que se contrapõe ao discurso mais exclusivo que seguia com os judeus, dizendo que todo aquele que cresse seria salvo. Certamente os gentios judaizantes, fora da história biológica de Israel, se viam aí incluídos: um Messias judeu para judeus e gentios.

Na terceira passagem, em Atos 17: 16-31, Paulo proclama a Cristo para gentios que nenhum conhecimento tinham das Escrituras. Paulo está em Atenas, o centro filosófico do mundo da época, e é conduzido até o areópago pelos epicureus e estoicos. Neste momento Paulo se encontrava em um cenário totalmente paganizado sem pressupostos judaizantes. O sermão de Paulo desta vez não se iniciou nas Escrituras vetero-testamentárias ou mesmo na promessa do Messias. Paulo lhes pregou Deus, a partir das evidências da criação e do deus desconhecido, “pois este que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio” (At 17: 23). Passa então a apresentar-lhes os atributos de Deus que “fez o mundo.... sendo Ele Senhor do céu e da terra” (v. 24), “de um só fez toda a raça humana” (v. 26), “não está longe de cada um de nós” (v.27), “notifica aos homens que todos em toda parte se arrependam” (v.30), “por meio de um varão... ressuscitando-o dentre os mortos” (v.31). Note que no verso 24, Paulo utiliza Theos para se referir ao “Deus que fez o mundo”, sendo o mesmo termo utilizado (Theos) para mencionar o deus desconhecido. Ele utiliza da idéia existente de deus para apresentar revelacionalmente o Deus da Palavra, criador de todas as coisas. O fim da mensagem é o mesmo: Jesus que morreu e ressuscitou.

Notem que aos judeus Paulo lhes fala sobre “o Deus da promessa”, Aquele que lhes trouxe do Egito pois estes conheciam o Deus da Escritura e se viam como os filhos da promessa. Eles entendiam que Deus se revelou a seus pais, que interagiu com seu povo ao longo da história, que lhes deixou as Escrituras.

Ao segundo grupo Paulo lhes fala sobre o Deus das promessas e da história de Israel mas, como havia entre eles gentios, lhes fala também do Messias que há de vir para a salvação de todo aquele que crê. Percebemos aqui neste texto que Paulo apresenta-lhes o Evangelho com fortes evidências escriturísticas, para os judeus, além de um forte apelo moral e escatológico, para os gentios judaizantes.

Ao terceiro grupo, puramente gentílico, o Messias que há de vir não lhes transmitia nenhuma mensagem aplicável à sua história pois era visto tão somente como o Messias Judeu. Eles não tinham as Escrituras que O revelavam nem as promessas e alianças. Eles não se enxergavam como filhos da promessa e não se identificavam com Abrão e Moisés. Porém eles se viam como os filhos da Criação. Possuíam tremenda atração pelas obras criadas e fascinação pela figura do Criador. Eram caçadores de respostas, estudiosos da religiosidade, qualquer religiosidade. Portanto, Paulo lhes pregou o Deus da criação, aquele que era antes de qualquer outro, que detém o poder de fazer surgir, e mantém a humanidade e o cosmos. Ele lhes fala demoradamente sobre os atributos deste Deus que é único, soberano, próximo e perdoador. Finalmente lhes fala de Jesus como o centro do plano salvífico de Deus, apresentando-O como o Messias para toda a humanidade.

Algumas conclusões a partir do modelo Paulino de exposição do Evangelho, em relação à contextualização da mensagem.

1. A mensagem, em um processo de comunicação contextual, jamais deve ser diluída em seu conteúdo. A fidelidade às Escrituras deve ser nossa prioridade à semelhança de Paulo que falou da ressurreição de Cristo no areópago, mesmo sabendo que seria um tema controverso para a crença filosófica presente.

2. O público alvo, seus pressupostos culturais, língua e entendimento sobre Deus são fatores relevantes para a apresentação do Evangelho. Paulo não pregou a Cristo da mesma forma aos três grupos. Sua sensibilidade ao ouvinte conduziu sua abordagem.

3. O uso de simbologias culturais explicatórias das verdades bíblicas podem ser utilizadas desde que apresentem claramente a relevância do Evangelho. Paulo fez isso utilizando o “deus desconhecido” partindo de um elemento sócio-cultural para expor, com clareza, a verdade do Evangelho. Em outros momentos ele o fez a partir da criação, do contraste entre Deus e os deuses adorados e do próprio sentimento humano de desencontro com a vida e perdição.

4. O Evangelho deve ser explicado a partir de si mesmo e não da cultura. O conteúdo do Evangelho não é negociável. Quando Paulo fala aos judeus sobre o Messias e lhes apresenta Jesus, ele estava ali em uma linha “segura” de comunicação. Porém, seu desejo por criar uma atmosfera propícia para a comunicação não fez com que minimizasse as verdades mais confrontadoras, que o levariam a ser expulso, ignorado e questionado.

5. O alvo final da apresentação da mensagem é levar o homem ao conhecimento de Cristo e não simplesmente comunicar. A comunicação de Paulo pavimentava o auditório para a apresentação da verdade, tanto para os filhos da promessa quanto para os filhos da criação.

6. A contextualização da mensagem, linguística e culturalmente, é um instrumento para uma boa comunicação, que transmita o Evangelho de forma clara e compreensível, e Paulo a utilizava abundantemente ao falar distintamente a judeus e gentios, escravos e livres, senhores e servos. Também Jesus, ao propor transformar pescadores em pescadores de homens, ao utilizar em seus sermões a candeia que ilumina, a semente lançada em diferentes solos, o joio e o trigo no mesmo campo, a dracma que se perdeu, as redes abarrotadas de peixes, fez isso para que o essencial da Palavra chegue de maneira inteligível para a pessoa, sociedade e cultura que o ouve.

7. O resultado esperado da apresentação contextualizada do Evangelho é o arrependimento dos pecados e sincera conversão. Qualquer apresentação do Evangelho que leve o homem a sentir-se confortável em seu estado de pecado é certamente inconclusiva e parcial. Paulo deixa isto bem claro quando lhes expõe um Evangelho libertador e transformador.

Critérios bíblicos para a contextualização

Tippett enfatiza que quando um povo passa a ver Jesus como Senhor pessoal, e não um Cristo estrangeiro, quando eles agem de acordo com valores cristãos aplicados à própria cultura vivendo um Evangelho que faz sentido à sua cosmovisão, quando eles adoram ao Senhor de acordo com critérios que eles entendem, então teremos ali uma igreja entre eles.

Apesar de o Evangelho ser supra cultural e a-temporal, para todos os povos em todos os tempos, cada cultura, por si, possui uma fórmula própria de elaboração de perguntas a serem respondidas pela Palavra. A sensualidade é condenada pela Bíblia, mas cada povo desenvolve uma compreensão cultural distinta do que é ou não sensual. A contextualização da mensagem, portanto, é um processo necessário para que a mesma seja transmitida com fidelidade.

Podemos exemplificar pensando na figura de um homem ocidental urbano com pneumonia. No ocidente tal enfermidade é tratada de acordo com o conhecimento acumulado sobre a enfermidade e a história prescrita de cura. A pergunta que surge, portanto, é apenas como tratá-la. No contexto africano, a principal pergunta a ser debatida não é como mas sim por quê. A causa da enfermidade é a questão mais relevante e nenhuma ação será tomada até que haja uma iniciativa na direção de se produzir esta resposta. Trata-se uma mesma enfermidade objetiva, gerada pelos mesmos mecanismos biológicos, mas com abordagens culturais distintas. A compreensão das perguntas que inquietam os corações é fundamental para a proclamação do Evangelho de forma decodificada e transformadora. Se fecharmos os olhos para a necessidade da contextualização iremos comprometer o conteúdo do Evangelho na transmissão do mesmo. Possivelmente passaremos adiante apenas sinais sem significados que produzirão valores sincréticos e não bíblicos.

Devemos, porém, perceber que a contextualização não possui valor em si mesma. Seu valor é proporcional ao conteúdo a ser contextualizado. Nielsen afirma que a Ubanda no Brasil é a forma mais perfeita de contextualização de valores religiosos. Trazida pelos escravos moldou-se ao Catolicismo europeu, forneceu uma mensagem pessoal e informal, gerou células que ganham vida de forma independente e cria cenários atrativos para novos adeptos. Portanto a pergunta não é apenas “como contextualizar” mas especialmente “o que contextualizar”.

Na tentativa de avaliar a compreensão (e transformação) do Evangelho em um contexto transcultural, ou mesmo culturalmente distinto, proponho três principais questões que deveríamos tentar responder perante um cenário onde a mensagem bíblica já foi pregada:

1. Eles percebem o Evangelho como sendo uma mensagem relevante em seu próprio universo?

2. Eles entendem os princípios cristãos em relação à cosmovisão local ?

3. Eles aplicam os valores do Evangelho como respostas para os seus conflitos diários de vida?

Contextualizar o Evangelho é traduzi-lo de tal forma que o senhorio de Cristo não será apenas um princípio abstrato ou mera doutrina importada, mas será um fator determinante de vida em toda sua dimensão e critério básico em relação aos valores culturais que formam a substância com a qual experimentamos o existir humano.

Para que isto aconteça é necessário observar alguns critérios para a comunicação do Evangelho:

1. Toda comunicação do Evangelho deve ser baseada nos princípios bíblicos não sendo negociada pelos pressupostos culturais das culturas doadoras e receptoras do mesmo. Entendo que a Palavra de Deus é tanto transculturalmente aplicável quanto supraculturalmente evidente. É portanto suficiente para todo homem, seja o urbano ou o tribal, o passado ou o presente, o acadêmico ou o leigo.

2. A comunicação do Evangelho deve ser uma atividade realizada a partir da observação e avaliação da exposição da mensagem que está sendo comunicada. O objetivo desta constante vigilância é propor um Evangelho que possa ser traduzido culturalmente fazendo sentido também para a rotina da vida daquele que o ouve. É necessário fazer o povo perceber que Deus fala a sua língua, em sua cultura, em sua casa, no dia-a-dia.

3. A rejeição do Evangelho não deve ser vista, em si, como equivalente à má contextualização. O confronto da Palavra com a cultura ocorrerá, assim como a rejeição da mensagem bíblica.

4. Ao elaborarmos a abordagem na apresentação do Evangelho deve-se partir da Bíblia para a cultura e não o contrário.

Não interessa o que mais um missionário faça, ele precisa proclamar o Evangelho. Trabalho social, ministério holístico e compreensão cultural jamais irão substituir a clara comunicação do Evangelho ou nem justificar a presença da Igreja. O conteúdo do Evangelho exposto em todo e qualquer ministério de plantio de igrejas deve incluir a) Deus como Ser Criador e Soberano (Ef. 1:3-6); b) O pecado como fonte de separação entre o homem e Deus (Ef. 2:5); c) Jesus, Sua cruz e ressurreição como o plano histórico e central de Deus para redenção do homem (Heb. 1:1-4); d) O Espírito Santo como o cumprimento da Promessa e encarregado de conduzir a Igreja até o dia final.

Concluo com rápidas palavras. Precisamos conciliar a sensibilidade e interesse cultural com uma teologia bíblica que fundamente o ministério. Se uma sugestão pudesse ser dada seria esta: reavaliarmos nossa atividade missionária e eclesiástica à luz daquilo que é teologicamente fundamentado e não apenas praticamente frutífero, seja do ponto de vista da comunicação da mensagem ou da formação da igreja.

Colhemos hoje frutos amargos do nominalismo cristão e do sincretismo religioso que germinaram a partir de um enfraquecimento da centralidade da Palavra durante o trabalho de comunicação do Evangelho. As justificativas históricas para tal quase sempre orbitaram entre dois pontos: a ênfase na justiça social e a procura por uma comunicação culturalmente mais sensível. Porém se cremos que Deus é o Criador e Senhor da história, dos povos, das línguas e culturas, precisamos crer que Sua Palavra não é apenas verdadeira mas também fomentadora de justiça (libertando os fracos e oprimidos) e também comunicável ao coração de todo homem, e destinada a todo homem.

Paralelamente também colhemos frutos amargos pela ausência de compreensão cultural na apresentação de Cristo. Dois destes frutos são o nominalismo cristão e sincretismo religioso. Olhando as frentes missionárias despreocupadas com a contextualização encontraremos, abundamente, templos de cimento para culturas de barro, pianos de calda para povos dos tambores, terno e gravata para os de túnica e turbante, sermões lineares para pensamentos cíclicos, sapatos engraxados para pés descalços. Tão ocupados em exportar nossa cultura nos esquecemos de apresenta-lhes Jesus, Deus encarnado, totalmente contextualizado, luz do mundo.

Trabalhos citados

Bosch, David J. 1983. The structure of mission: An exposition of Matthew 28:1-20. In Exploring church gorwth, ed. Wilbert R. Shenk, 218-248. Grand Rapids, MI: Eerdmans.

---------. 1991. Transforming mission: Paradigm shifts in theology of mission. Maryknoll, New York: Orbis.

Hesselgrave, David. 1980. Planting churches cross-culturally: A guide to home and foreign missions. Grand Rapids, MI: Eerdmans.

Hibbert, Richard. 2005. Paper: A survey and evaluation of contemporary evangelical theological perspectives on church planting.

Hiebert, Paul G. and Hiebert Meneses, Eloise. International Ministry: Planting Churches in Band, Tribal, Peasant, and Urban Societies. Grand Rapids, MI: Baker Book House 1996.

McGavran, Donald. "Reaching People Through New Congregations," Church Growth Strategies That Work. by Donald McGavran and George F. Hunter, III. Nashville, TN: Abingdon Press, 1980.

Nicholls, Bruce J. Contextualização: Uma Teologia do Evangelho e Cultura. Trad.: Gordon Chown. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1983.

O Evangelho e a Cultura. Série Lausanne, No. 3. 2a. Ed. Belo Horizonte: ABU Editora e Visão Mundial, 1985.

Reifler, Hans Ulrich. Antropologia Missionária para o século XXI. Londrina. Editora Descoberta, 2003.

Stott, John. “The Living God is a Missionary God,” in Perspectives on the World Christian Movement, Ed. Ralph Winter and Steven Hawthorne, Pasadena: William Carey Library, 1981

Tippett, Alan. 1987. Introduction to missology. Pasadena, CA: William Carey Library.

Van Engen, Charles. 1999. Footprints of God: A Narrative Theology of Mission. Monrovia, CA

Verkuyl, J. 1978. Contemporary missiology: An introduction, trans. Dale Cooper. Grand Rapids, MI: Eerdmans.

Vicedom, George F. 1965. The Mission of God. Trans. Gilbert A. Thiele and Dennie Hilgrendorf. St. Louis: Concordia.

Wilbur, Odonovan Jr. O Cristianismo bíblico da perspectiva africana. São Paulo: Editora Vida Nova.

Wright, Robin (Org.). Transformando os Deuses – Os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 1999.

Woodford, Brian. 1997. One church, many churches: A five-model approach to church planting and evaluation


[i] “kerychtesetai”: e será proclamado de forma inteligível
[ii] “martyria” (testemunho) indica uma ação informal de vida enquanto “kerygma”(proclamação) pressupõe uma pregação mais sistemático do Evangelho.


Fonte: http://www.ronaldo.lidorio.com.br.

A importância da petição contra a difamação da religião

Como divulgado frequentemente pela Missão Portas Abertas, a Organização da Conferência Islâmica, que compreende 57 países, sendo a maioria de população muçulmana, apresentará mais uma vez a Resolução da Difamação da Religião na Assembleia Geral das Nações Unidas, no final deste ano.

Essa resolução trará alguns direitos aos muçulmanos que trazem consequencias graves aos cristãos que vivem em países perseguidos e/ou sob estas leis islâmicas. Muitos países apoiaram essa resolução no passado, mas alguns agora estão mudando de ideia. Este ano, existe uma possibilidade real de que ela seja derrotada.

Participe da campanha do Free to believe!

A petição global realizada pela Portas Abertas Internacional e una-se a milhares de cristãos ao redor do mundo. O abaixo-assinado, que ultrapassou mais de 20 mil assinaturas, será entregue às Nações Unidas em dezembro deste ano e você pode assiná-la online no site.

Abaixo, segue o relato de uma viúva cristã do Uzbequistão que sofre perseguição, e precisa da nossa intervenção.

Divergências entre cristãos e muçulmanos

A contínua cobertura negativa da mídia televisiva e os jornais têm colocado a sociedade contra os cristãos, retratando-os como "seitas perigosas” e “inimigos do povo”.

Os líderes comunitários formaram alianças com o clero islâmico em oposição aos cristãos locais da aldeia ou reuniões do distrito, e os tratam como párias da sociedade. Os cristãos são agredidos verbalmente e muitas vezes, espancados em público numa tentativa de forçá-los a renunciar a Cristo.

Uma tática social particularmente cruel é aplicava pelas autoridades Karakalpak aos cidadãos cristãos: eles não têm permissão para sepultar seus mortos.

Para Polat, um cristão deficiente físicos, tudo começou em fevereiro de 2009, quando 10 policiais invadiram sua casa e confiscaram sua Bíblia. Paralisado e numa cadeira de rodas, Polat, de 40 anos, nunca teve sua Bíblia de volta, uma vez que o Comitê de Assuntos Religiosos concluiu que era um livro proibido em Karakalpakstan.

Apenas um mês depois, o pai de 67 anos de Polat morreu de um ataque cardíaco. Embora o pai não fosse um cristão, as autoridades locais decidiram punir a mulher e o filho por suas crenças e atividades cristãs.

Em primeiro lugar, o líder imã da cidade recusou a permissão para realizar o enterro. Então, o clero islâmico e a polícia secreta proibiram a família de realizar um funeral tradicional. Vizinhos e outros imãs foram avisados para não participar de qualquer cerimônia. O cemitério local se recusou a atribuir qualquer parcela no sepultamento e foi colocado um guarda para impedir que se cavassem uma sepultura.

Quando a mãe de Polat, Aksulu foi à principal mesquita da cidade para resolver o problema, foi informada que não poderia enterrar seu o marido a menos que assinasse uma "confissão" sobre suas atividades cristãs e prometesse espionar outros cristãos e publicamente renunciasse a Cristo.

Quando a viúva cristã se recusou, foi ameaçada com uma multa caso continuasse com qualquer "ensino religioso". Também foi informada que após uma segunda infração dentro de um ano, seria submetida a um processo criminal, e poderia ser presa.

Por último, três dias depois, os anciãos locais cederam e arranjaram a arrumação de um funeral discreto fora do cemitério. Isso ocasionou para eles uma severa reprimenda da polícia de segurança para nunca fazer isso.

Na cultura Karakalpak, toda a comunidade deve participar de uma refeição para a partilha comum de dor de uma família. Mas, para vergonha da família enlutada, os vizinhos foram ameaçados de acusação penal pela polícia caso tivessem qualquer envolvimento com a família quanto aos rituais fúnebres como o 40º e 100º dia após o falecimento.

Autoridades locais foram de casa em casa por toda a comunidade, alertando: "Quem se torna um cristão também será punido. Seus mortos não serão enterrados!”

Apenas cinco dias depois que o pai de Polat morreu, uma mulher cristã de uma cidade vizinha também morreu. Por causa das advertências policiais, o seu enterro também foi arranjado sem o apoio da comunidade.

"As autoridades não permitem que os falecidos de família de cristãos sejam enterrados de acordo com as tradições locais", disse um líder cristão. "A comunidade não está autorizada a dar qualquer ajuda material ou a participar das cerimônias."

Estes e outros esforços de intimidação dos oficiais da polícia de segurança continuam a ter o maior impacto sobre os cristãos locais de karakalpakstan. Eles são forçados a enfrentar imensas pressões psicológicas e físicas em um contexto muçulmano.

Assine hoje mesmo a petição!

Tradução: Carla Priscilla Silva

Fonte: Missão Portas Abertas

Os essenciais da missão

"A missão de Deus é o mundo. O método de Deus é a Igreja. O tempo de Deus é hoje"

O pacto de Lausanne oficializado em 1974 por líderes de 150 países sintetizou a missão da Igreja dizendo que o propósito de Deus é oferecer o Evangelho todo, por meio de toda a Igreja, a toda criatura, em todo o mundo.

Deixa, assim, bem claro que a missão de Deus é o mundo. O método de Deus é a Igreja. O tempo de Deus é hoje.

Paulo escreve a carta aos Romanos estando em Corinto possivelmente no ano 57. Ele estava de partida para Jerusalém levando a oferta para os crentes pobres e aproveita a saída de Febe, uma senhora de Cencréia nos derredores de Corinto que viajava para Roma, para escrever uma carta a esta nova e respeitada igreja.

Havia na igreja de Roma judeus e gentios, sendo os gentios predominantes. Uma igreja com a fé em Cristo alicerçada e liderança reconhecida. Paulo estava no fim de sua terceira viagem missionária e planeja seu próximo passo. Ele escreve para a igreja antes mesmo de visitá-la. Uma comunidade de crentes no centro do Império em uma cidade com cerca de 1 milhão de pessoas.

Ele era um missionário bem como um teólogo. Como teólogo ele expõe para a Igreja em Roma os fundamentos da fé cristã e fortalece a igreja. Como missionário ele diz que pretende visitá-los de passagem para a Espanha, onde pretendia testemunhar de Cristo. Como teólogo ele diz que a glória de Deus é a finalidade maior da existência da Igreja. Como missionário ele enfatiza que a prioridade diária da igreja é anunciar a Cristo onde ainda não fora anunciado.

Agostinho, Lutero e John Wesley vieram ao Senhor Jesus através dos textos desta carta aos Romanos. Lutero afirma que jamais um texto mudou tanto a vida de homens e mulheres como esta carta. João Crisóstomo pedia que lhe fosse lida esta carta uma vez por semana. Calvino dizia que esta carta era uma introdução à Bíblia. Melancton a transcreveu, duas vezes, à mão, para conhecê-la melhor.

Introdução – Chamado para ser apóstolo

Leiamos todo o capítulo 1 desta carta de Paulo aos Romanos.

No capítulo 1, verso 1, Paulo se apresenta e o faz a partir de suas convicções mais profundas.

Ele aqui é “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”.

Ele afirma ser “servo” – doulos – escravo comprado pelo sangue do Cordeiro, liberto das cadeias do pecado e da morte e, apesar de livre, cativo pelo Senhor que o libertou.

Ele afirma ser chamado para ser “apóstolo” demonstrando que alguns servos podem ser chamados ao apostolado, porém não há apóstolos que não sejam primeiramente servos.

Ele é “chamado” por Deus. Em Efésios 4 ele entende que o Senhor Jesus chama, dentre todos na Igreja, “alguns” para serem apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestres.

Quem nós somos, nosso chamado em Cristo, é mais determinante para nosso ministério do que para onde iremos. Não há na Palavra um chamado geográfico (para a China, Índia...), ou mesmo étnico (para os Indígenas, Africanos...). O chamado bíblico é funcional, quem somos em Cristo Jesus, e não para onde iremos.

Na exposição de Paulo alguns foram chamados para serem apóstolos, ou “a pedrinha lançada bem longe”, na expressão de John Knox. São aqueles que vão aonde a igreja ainda não chegou. Há os profetas, que falam da parte de Deus e comunicam Sua verdade. Há os chamados para serem pastores, que amam e cuidam do rebanho de Cristo. Estes são aqueles que amam estar com o povo de Deus e se realizam ministerialmente cuidando deste povo. Há os evangelistas, que são aqui os “modeladores” do evangelho, ou seja, os discipuladores. São os irmãos que fazem um trabalho nos bastidores, de discipulado, extremamente relevante para o Reino, o crescimento e amadurecimento da Igreja. Por fim os mestres, que ensinam a Palavra de forma clara e transformadora. São aqueles que lêem a Palavra e a expõe, e o fazem de forma tão clara que marca vidas e corações.

Na dinâmica do chamado há certamente uma direção geográfica. Se alguém possui convicção de que Deus o quer na Índia isto significa que há uma direção geográfica de Deus, não um chamado ministerial. Mas notem: a direção geográfica muda, e mudou diversas vezes na vida de Paulo. O chamado, porém, permanece.

Paulo foi chamado para os gentios, como por vezes expressa. Era uma força de expressão para seu perfil missionário pois, com exceção dos judeus, todo o mundo era gentílico. Assim ele expressa em Romanos 15:20 a prioridade geográfica do ministério da Igreja: “onde Cristo ainda não foi anunciado”. Na época, prioritariamente entre os gentios. Hoje, porém, pode ser perto e pode ser longe. Uma pessoa, de qualquer língua, raça, povo ou nação, que ainda não tenha ouvido as maravilhas do Evangelho, é a prioridade de Deus para a obra missionária.

Vivemos dias difíceis em que as convicções bíblicas mais profundas são questionadas dentro e fora da Igreja. É necessário alicerçarmos nossas convicções bíblicas missionais.

1. A mensagem missional: o evangelho é o poder de Deus

Leiamos juntos o verso 16: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego”.


Temos freqüentemente uma má compreensão bíblica sobre o evangelho. No meio missionário ouvimos que o “evangelho está se expandindo”, que o “evangelho está crescendo”, que o “evangelho está sofrendo oposição” pois compreendemos evangelho como Igreja, ou como movimento missionário. Paulo sempre alterna suas ênfase evangelizadora, ora dizendo que prega o evangelho, ora dizendo que prega a Cristo.

Não estamos com isto afirmando que Jesus é o conteúdo do Evangelho, mas que Jesus é o próprio Evangelho. A expressão grega euaggelion – Boas Novas – refere-se ao cumprimento da Promessa – epaggelia. Jesus é, portanto, tanto a epaggelia quanto o euaggelion – tanto a promessa quanto seu cumprimento. É uma expressão validadora que a Promessa profetizada em todo o Novo Testamento está entre nós.

A Promessa chegou, e está entre nós. Ela se chama Jesus.

Jesus, portanto, é o Evangelho. Usando cores fortes no verso 16 Paulo afirma que “não me envergonho do evangelho”, ao que ele quer dizer: “eu não me envergonho de Jesus”. Quando ele afirma que o evangelho “é o poder de Deus” ela deseja comunicar que “Jesus é o poder de Deus”. Quando ele categoricamente destaca que o evangelho é poderoso para “salvar a todo aquele que crê” refere-se a Cristo: Jesus é poderoso para salvar a todo aquele que crê.

Assim, se nos envergonharmos do evangelho, estamos nos envergonhando de Jesus. Se deixarmos de pregar o evangelho, deixamos de pregar a Jesus. Se não cremos no evangelho, não cremos em Jesus. Se passamos a questionar o evangelho, seus efeitos perante as culturas indígenas, africanas e asiáticas, sua relevância, nós não estamos questionando uma doutrina, um movimento ou a Igreja. Nós estamos questionando a Jesus.

O que Paulo expressa neste primeiro capítulo é que, apesar do pecado, do diabo, da carne e do mundo, não estamos perdidos no universo: há um plano de redenção. Ele se chama Jesus. O poder de Deus se convergiu em Jesus. Ele nos amou com amor infinito. Ele está entre nós.

E ele diz de forma claríssima: “Não me envergonho”. A expressão aqui usada para vergonha apontava para uma posição de desconforto, quando alguém é destacado e criticado por muitos, ridicularizado.

Entendamos o contexto. O mundo da época era imperialista humanista e triunfalista. Interessante como as filosofias sociais não mudaram tanto em 2.000 anos. O evangelho, porém, contendia com todas estas idéias e, assim, colocava Paulo em situação altamente desconfortável ao apresentar Jesus como a verdade de Deus para salvação de todo homem.

Em um mundo imperialista Roma era o centro do universo e César o único capaz de organizar a sociedade de forma justa. Qualquer outra solução social que não passasse por Roma seria vista politicamente como uma afronta. Paulo, ao falar do evangelho de Deus como único capaz de solucionar os conflitos humanos seria combatido politicamente, colocando-o em clara situação de desconforto. A pregação do evangelho, assim, afrontava os pilares sociais e políticos.

Em um mundo humanista, sob influência grega, o homem habitava o centro do universo e qualquer ideologia ou filosofia só faria sentido se glorificasse o próprio homem. Ao falar sobre o evangelho de Deus, e não o evangelho do homem, Paulo certamente seria visto como um simplista cheio de religiosidade, alguém com uma mente menor. A pregação do evangelho, desta forma, afrontava também a filosofia da época.

Em um mundo triunfalista o universo era definido entre os conquistadores e os conquistados. Vencer batalhas e conquistar novas terras era o equivalente ao progresso. Ao falar sobre o evangelho de Deus como o único elemento capaz de vencer, glorificando o próprio Deus e não os homens, Paulo é visto como um derrotado. Desta forma a pregação do evangelho afrontava também a maneira do homem enxergar a vida.

Portanto, há 2.000 anos, falar do evangelho de Deus – falar de Jesus - poderia causar problemas políticos, gerar desprezo intelectual ao pregador e dar-lhe uma identidade de derrotado. Nada tão diferente de nossos dias.

Perante isto o Apóstolo Paulo brada: “eu não me envergonho....”. O evangelho é o poder de Deus. O evangelho é Jesus.

Gostaria de destacar algumas implicações desta nossa convicção missional, de que o evangelho é o poder de Deus.

Em primeiro lugar o evangelho jamais será derrotado pois o evangelho é Cristo. Sofrerá oposição, seus pregadores serão perseguidos. Será caluniado, mas jamais derrotado.

Em segundo lugar o evangelho não é o plano da Igreja para a salvação do mundo mas o plano de Deus para a salvação da Igreja. O que valida a Igreja é o evangelho, não o contrário. Se a Igreja deixa de seguir o evangelho, de seguir a Cristo, se a Igreja passa a absorver o imperialismo, humanismo, triunfalismo, e esquecer-se de Jesus, deixa de ser Igreja. A Igreja só é igreja se for evangélica – se seguir o evangelho.

Em terceiro lugar o evangelho não deve ser apenas compreendido e vivido. Ele se manifestou entre nós para ser pregado pelo povo de Deus. Paulo usa esta expressão diversas e diversas vezes. Aos Romanos ele diz que se esforça para pregar o evangelho (Rm 15.20). Aos Coríntios ele diz que não foi chamado para batizar mas para pregar o evangelho (1 Co 1.17). Diz também que pregar o evangelho é sua obrigação (1 Co 9.16).

Não importa mais o que façamos em nossas iniciativas missionárias, é preciso pregar o evangelho. A pregação abundante do evangelho, portanto, não é aqui apenas o cumprimento de uma ordem ou uma estratégia missionária mas o reconhecimento do poder de Deus. Uma igreja, uma pessoa, uma missão que não proclama Jesus está, paradoxalmente, menosprezando a expressão do poder de Deus na terra e a própria essência do evangelho, que é Jesus.

Paulo está dizendo, por outro lado, que é possível haver motivos humanos para um sentimento de vergonha, ou seja, constrangimento, ao pregar o evangelho. H averá humilhação, desprezo e perseguição. Mas “não me envergonho” porque é o evangelho é Jesus.

2. A necessidade missional: a humanidade – impiedosa e perversa – é indesculpável

No verso 18 Paulo nos apresenta a um Deus irado contra a atitude humana dizendo: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”.
No verso 20 ele afirma que Deus se manifestou desde a criação. Deus se manifestou e continuamos impiedosos e perversos. Somos, assim, indesculpáveis.

Notem que a “ira de Deus” não se manifesta contra o homem mas contra a impiedade e perversão do homem.

A “impiedade” refere-se a termos rompido com os valores de Deus. A “perversidade” refere-se a termos rompido com os valores dos homens. Expõe, portanto, um homem corrompido também criador de sua própria verdade.

Nem tudo o que é cultural é puro. O relativismo ético tem tentado moldar a presente geração convencendo-a de que toda prática humana é justificável desde que seja aceita por um grupo, ou seja, pelo próprio homem. A Palavra nos afirma o contrário: as práticas que fomentam o sofrimento do próximo e o distanciamento de Deus nos condenam – somos indesculpáveis.

Nos versículos 19 e 20, Deus se manifesta através da criação e há aqui um elemento universal: um Deus soberano, criador, controlador do universo e detentor da autoridade sobre a criação. Os homens, citados no verso 18, tornam-se indesculpáveis por ser Deus revelado na criação “desde o princípio do mundo”, sendo revelado tanto o “seu eterno poder”, quanto “a sua própria divindade”. Portanto, perante um homem caído, existente em sua própria injustiça, impiedoso e perverso, Paulo não destaca soluções humanas, eclesiásticas ou mesmo sociais. Ele nos apresenta Deus. Na teologia paulina a solução para o homem não é o homem, mas é Deus e Sua revelação.

Paulo está aqui, com forte tônica teológica, descrevendo a necessidade humana. Precisamos de Deus.

Em nosso estado natural após a queda – impiedade e perversidade – estamos perdidos. Podemos convencer alguém de que ele é pecador mas apenas o Espírito Santo poderá convencê-lo de que está perdido. O homem natural não se enxerga perdido, mesmo se enxergando pecador, o que o pretere de buscar a salvação em Cristo. Somente quando o Espírito Santo intervém ele é convencido de sua premente necessidade de Cristo.

O mundo hoje, após 2.000 anos em que esta Palavra foi revelada, continua impiedoso, perverso, perdido e necessitado de Deus.

40 milhões de africanos falam mais de 1.200 línguas que ainda nada conhecem do evangelho de Cristo. Na América Latina 1 terço das línguas nada tem da Palavra de Deus. Há ainda bem mais de 100 etnias indígenas, no Brasil, sem presença missionária, e mais de 180 sem uma igreja local entre eles. A Europa vive hoje uma fase pós cristã onde pregar o evangelho é tarefa das mais árduas. Alguns dizem que verdadeiros missionários pregam o evangelho nos lugares menos desenvolvidos, mais pobres e isolados do planeta. Ledo engano. Na África e na Amazônia pessoas sentam-se ao seu redor para lhe ouvir, mas não na Europa. Ali o evangelho é ridicularizado como também o evangelizador.

O Islamismo, nos últimos 5 anos cresceu 500% no mundo. O Budismo 100%. O Hinduísmo 70%. O Cristianismo 45%. O Islamismo não é apenas a religião que mais cresce no mundo hoje mas é também a religião predominante em 43 países. 20% da população mundial é Islâmica. Os Islâmicos esperam se tornar a religião mais ativa na Suécia, França e Inglaterra dentro de 20 anos.

Há mais de 17.000 comunidades ribeirinhas e indígenas sem nada do evangelho no Norte do nosso país. O sul continua sendo um desafio imensurável. Poucas igrejas, pouco avanço, grande necessidade. O nordeste, apesar do abençoado avanço missionário nos últimos 15 anos, ainda possui bolsões onde Jesus é totalmente desconhecido e jamais foi apresentado ao povo local.

Cresce no mundo toda sorte de “perversão dos homens que detém a verdade pela injustiça” (verso 18). Paulo enumera alguns atos de perversão. No verso 20 ele nos fala da perversão filosófica em que os homens, mesmo perante a manifestação de Um que tudo criou, procuram alicerçar suas vidas com base em seus próprios pensamentos corruptíveis. No verso 23 fala-nos da perversão religiosa em que mudaram a glória de Deus, incorruptível, em imagem de homem corruptível bem como de aves, quadrúpedes e repteis. Fala-nos da idolatria. No verso 26 em diante nos fala a respeito da perversão ética onde ele menciona que o homem deixa o contato natural com a mulher e se relaciona homem com homem, cometendo torpeza. No verso 28 a Palavra nos diz que, por terem desprezado o conhecimento de Deus, o Senhor os entrega a uma “disposição mental reprovável”. Ou seja, a natureza humana é pecaminosa, e assim o homem se põe a cometer “atos inconvenientes, cheios de injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e misericórdia” (Rm 1.29, 30 e 31).

O homem, portanto, não é condenado por não conhecer a história bíblica. Ele é condenado por não glorificar a Deus. Os homens não são condenados por não ouvirem a Palavra. São condenados cada um por seu pecado.

Há alguns elementos bíblicos neste precioso texto que nos ajudam a pensar em alguns princípios em relação ao evangelho.

Em primeiro lugar há uma verdade universal e supra cultural: Deus é soberano e dono de toda glória. Esta verdade fundamenta a proclamação do evangelho.

Em segundo lugar o pecado intencional (perversidade e impiedade) nos separa de Deus. Não há como apresentar Deus que busca se relacionar com o homem sem expor o pecado humano e seu estado de total carência de salvação.

Em terceiro lugar somos seres culturalmente idólatras. É comum ao homem caído gerar uma idéia de deus que satisfaça aos seus anseios sem confrontá-lo com o pecado. Esta atitude é encontrada em toda a história humana e não colabora para o encontro do homem com a verdade de Deus.

Em quarto lugar a mensagem pregada por Paulo é contextualizada, expondo Deus de forma compreensível. Não é inculturada, pregando um deus aceitável ou desejável, mas sim um Deus verdadeiro. Se amenizarmos a mensagem do pecado contribuiremos para a incompreensão do evangelho, o sincretismo religioso e o esfriamento do movimento missionário.

3. A manifestação missional: Deus nos convida a crer - o justo viverá por fé

Uma das expressões mais bombásticas em toda a Escritura se encontra no verso 19: “porque Deus lhes manifestou”.

Somos salvos pela manifestação de Deus. As nações - todo aquele que crê – serão salvas pela manifestação de Deus. Não pela capacidade da Igreja, por suas estratégias bem torneadas, por suas mentes brilhantes, por sua habilidade lingüística ou teológica – mas pela manifestação de Deus.

Deus não é manifestado, Ele aqui se manifesta. Ele é o iniciador da nossa salvação. Seu amor é a segurança de que somos salvos.

C.S. Lewis nos diz que a imutabilidade do caráter de Deus – Pai amoroso – é a segurança de nossa salvação. A fé não é a fé na Igreja, ou a fé na própria fé, mas sim a fé em Deus, naquEle que se manifesta.

No capítulo 1, verso 17, Paulo nos diz que “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”.
Em meio ao caos do pecado, diz Paulo, o justo viverá. Viverá por fé.

Ele aqui reproduz a mensagem de Habacuque (Habacuque 2:4) que faz esta afirmação 600 anos antes de Cristo . Para entendermos esta verdade precisamos pensar no profeta Habacuque.

No primeiro capítulo do livro de Habacuque o profeta denuncia o sofrimento do povo de Deus. Diz que, perante o ataque dos Caldeus, o povo sofre violência, destruição, prisão e humilhação. E pergunta: "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade e me fazes ver a opressão?" (1:2-3). O profeta pede que Deus mude as circunstâncias, que anule o sofrimento.Deus responde à Habacuque, mas não é a resposta que ele deseja ouvir. O Senhor diz que haverá ainda mais destruição, morte e sofrimento. Habacuque se desespera e diz que se porá na torre de vigia. Habacuque não sabe o que fazer.
Pede paz e o Senhor lhe anuncia coisas ainda mais terríveis. Pede que o sofrimento cesse e o Senhor lhe apresenta sofrimento ainda maior. Habacuque, porém, confia no caráter do Senhor e diz: eu esperarei.Ali Habacuque reflete e percebe que Deus possui motivos para castigar o seu povo. Identifica, assim a idolatria, a autoconfiança e a iniqüidade. Habacuque ainda aguarda na torre de vigia e espera a misericórdia do Senhor.

Ao fim ele percebe que “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é minha fortaleza” ( Hc 3: 17-19).O profeta percebe que Deus não perdeu Seu poder mesmo perante o caos. Deus não deixa de ser Deus quando se cala. E Deus permite o caos para nos ensinar a crer. O profeta percebe que Deus o convida a crer, e este é o assunto central neste diálogo entre Habacuque e Deus. Habacuque pede que o Senhor mude as circunstâncias mas Deus lhe convida a crer que Ele é Deus mesmo no meio da tempestade.

No capítulo 3.17 Habacuque exclama, aquilo que iria levar Paulo após 600 anos a fundamentar a carta aos Romanos, e aquilo que levaria Lutero, após 2.100 anos, a iniciar a Reforma: “O justo viverá por fé”.

Deus não convida os povos a ver, mas sim a crer. Deus nos convida a ter fé. E a fé vem pelo ouvir, e o ouvir da Palavra do Senhor.

Não há nada mais poderoso em nossas ações missionárias do que proclamarmos a Palavra do Senhor. Ela gera fé. Ela transforma o coração mais duro, a nação mais forte, o homem mais ímpio. Ela transformou a minha e a sua vida. Fará isto ainda com milhões. A missão da Igreja não é apenas clamar por paz, ou pedir que o Senhor mude as circunstâncias. A missão da Igreja é proclamar a Palavra que gera fé, converte o coração, transforma as nações.

Conclusão

Partilhamos nestas linhas algumas convicções missionais. A mensagem missional (o evangelho - Jesus - é o poder de Deus); A necessidade missional (o homem, impiedoso e perverso, está perdido); A manifestação missional (Deus convida o mundo a crer: o justo viverá por fé).

O pastor Hernandes Dias Lopes diz que a obra missionária é imperativa, intransferível e inadiável. Ele tem razão. Diz também que a Igreja é a única que não ouve e obedece a voz de Deus.

Deus ordenou, e sua Palavra sempre foi obedecida. Ele disse ‘haja luz’ e houve luz. Falou ao mar e ele se abriu. Sua palavra foi obedecida por demônios que foram expulsos, enfermos que foram sarados, muralhas que caíram. Ele falou à tempestade e ela se acalmou.

Ele também ordenou a igreja: vá por todo o mundo anunciar Jesus a todas as nações. Após 2.000 anos de Cristianismo Jesus ainda permanece desconhecido por boa parte do planeta, mais de 3.500 línguas faladas por 2 bilhões de pessoas não o conhecem. Será a Igreja, perante todos, a única a desobedecer ao comando do Senhor ?

Fonte: Ronaldo Lidório (http://www.ronaldo.lidorio.com.br/)

Agenda do Curso Kairós

O Curso Kairós faz parte do Perspectives Family e foi desenvolvido nas Filipinas, em 1994, com o objetivo de educar, inspirar e desafiar cristãos para participarem ativamente do cumprimento da Grande Comissão de Cristo. O curso utiliza diferentes ferramentas de aprendizado, como grupos de crescimento, estudos, vídeos, intercessão pelos povos não-alcançados no Brasil e em outros países, e muito mais. O manual contém artigos edificantes, elaborados pelos principais missiólogos dos últimos tempos. O programa é divido em quatro áreas conceituais de missões, quais sejam: bíblica, histórica, cultural e estratégica. O curso já está em 48 países, traduzido para 20 línguas e desde 2007 no Brasil.

Venha aprender mais sobre missões e saber como você pode ser usado por Deus nas nações!


1) Curso Kairós na Igreja Sal da Terra em Uberlândia

Duração: 10 semanas

Data de inicio: segunda-feira, 4 de outubro

Dia: toda segunda-feira

Horário: 19:30 a 22:00

Local: Igreja Sal da Terra Saraiva

Endereço: Rua José Rezende Costa, 407, Saraiva (atrás do Habbibs)

Custo: R$80,00 que pode ser parcelado em 3 vezes (inclui o material didático). Temos descontos para casais e famílias.

Inscrições: Até 30 de setembro.

Juliet Rogers (juliet.rogers@one0one.net)

Rodrigo (contato@institutoagape.org) – (34) 9158-8764

Suédna (suedna@yahoo.com.br) – (34) 8831-8532


2) Curso Kairós na base da JOCUM em Goiânia

Data: 21 a 25 de setembro.

Inscrições: R$80,00.

Rodrigo (contato@institutoagape.org) – (34) 9158-8764


Para maiores informações, fale conosco.

Contamos com sua presença!

E a paixão missionária onde foi parar?

Por: Alex Branco

Meu chamado missionário deu-se na adolescência. Em nossa igreja sempre havia missionários que por lá passavam e contavam-nos suas experiências adquiridas nas mais diversas partes do mundo. Foi ali, no convívio da igreja, que ouvi falar do mundo islâmico, budista, hindu e comunista. No seio da igreja sonhei com os campos missionários e com a possibilidade de glorificar a Deus com minha vida. Nesta ocasião era praticamente impossível ler Mateus 28:19-20 sem as lágrimas virem aos olhos.

O tempo passou, o adolescente cresceu e o sonho tornou-se realidade. Tive o imenso privilégio de servir ao Senhor no mundo hindu por vários anos e nos últimos sete anos num contexto pós-cristão da Europa. Minha paixão pela missão continua a mesma, apenas mais amadurecida, já com alguns fios de cabelos brancos, e ainda hoje é impossível ouvir alguém falar de missões entre outros povos sem que as lágrimas me venham aos olhos.

Nestes quase quinze anos fora do Brasil e envolvido com a obra missionária, foram raras as oportunidades de voltar à “pátria amada”. No entanto, a cada retorno foi possível notar um esfriamento cada vez maior da paixão missionária. Lembro-me da ocasião em que as pessoas nos procuravam desejosas de saber sobre os povos do mundo e das necessidades missionárias. Já na minha última viagem ao Brasil a pergunta mais comum era: “Europa, interessante, lá é bom mesmo para se ganhar dinheiro?” Aliás, acredito que as necessidades missionárias da Europa sejam as mais desconhecidas da igreja brasileira. Quantos brasileiros sabem das milhares de cidades da Europa sem uma única igreja cristã? Só no pequeno Portugal são quase cinqüenta cidades sem igrejas.

O sentimento que tenho é que a igreja brasileira assumiu a sua responsabilidade, mas perdeu a paixão. Da última vez que lá estive raras eram as pessoas interessadas em falar sobre missões. Faz-se missões, mas não mais refletimos sobre o assunto. O resultado é um distanciamento daquilo que hoje acontece no mundo missionário, suas novas tendências, os novos alvos e, acima de tudo, nada se fala dos mais de doze mil povos não alcançados e muitos ficam espantados ao ouvir que ainda hoje missionários e cristãos são mortos ou lançados em prisões por causa do Evangelho, para estes, estas coisas de perseguição não passam de alguns relatos do Novo Testamento.

Hoje o missionário é um problema que a igreja brasileira tenta administrar dentro das suas prioridades locais. O assunto administra-se da maneira mais conveniente possível, conveniente para a igreja local, não para o missionário. Nós, brasileiros, gostamos da glória da missão, não do custo da missão. Gostamos de dizer que o “Brasil é o Celeiro do Mundo”, mas nos esquecemos de dizer que os missionários brasileiros estão entre os que menos recursos recebem de suas igrejas, e que raríssimos são os casos dos que possuem algum plano de aposentadoria.

Lembro-me da ocasião em que nos reunimos na Noruega. Éramos um grupo de cinqüenta brasileiros envolvidos com missões, sentíamo-nos o grupo mais especial do mundo, até que ouvimos o reitor da faculdade missionária da Noruega que, com detalhes e aquela humildade típica dos noruegueses, falou-nos como fazer missões de verdade, e contou-nos sobre a missão desenvolvida por missionários noruegueses em Madagascar ao longo dos anos, onde estão sepultados ao menos mil e quinhentos missionários noruegueses, mortos pelos mais variados motivos. A igreja brasileira ainda está muito longe da realidade do custo da missão.

Outra coisa importante a aprender com os nórdicos sobre como fazer missões está no tratamento que recebe o missionário norueguês. Em sua maioria possuem os mesmos direitos sociais e financeiros dos pastores locais. Isto significa que, após uma determinada idade, os missionários poderão contar com uma pensão vitalícia que garantirá o sustento na velhice e a garantia de provisão para a família. No caso brasileiro, a menos que o missionário faça contribuições por conta própria para a previdência social ou privada, chegará à velhice em uma situação constrangedora. Mas como a igreja brasileira ainda é muito nova no seu envolvimento missionário, pouco se pensa sobre este assunto. Não posso deixar de elogiar algumas juntas missionária e igrejas que agem diferente nesta questão e investem no futuro de seus obreiros.

Como podemos ver, a questão da missão é muito mais séria que enviar cinqüenta reais ou mil reais por mês para um missionário no campo. É uma questão de consciência missionária, de real envolvimento com todos os aspectos da vida do missionário, afinal, “digno é o trabalhador do seu salário” (Lc 10:7). Lembro-me da irmã Hanna, uma missionária aposentada, membro da nossa igreja na Noruega que, depois de mais de quarenta anos de serviço missionário na África, gozava de sua velhice a tocar piano em casa e nos lares de idosos que ela visitava semanalmente, como uma forma de manter-se ativa. Um dia numa conversa com ela fiquei surpreendido ao ouvir desta irmã que todos os seus mantenedores que a apoiaram quando ela saiu para missões na África, os que ainda viviam, continuavam a lhe enviar ofertas mensais, mantendo um lindo relacionamento entre mantenedor e missionário por mais de cinqüenta anos. Será que no Brasil algum dia ouviremos histórias assim de nossos missionários? No meu caso, um anos após ter saído para Índia, dos que se comprometeram comigo, 60% acabaram por desistir.

É tempo de repensar nosso envolvimento missionário, restaurar a paixão perdida, buscar aprender com outros povos como fazer missões de forma efetiva e duradora. O orgulho missionário brasileiro de nada serve, só nos atrapalha. Não somos o celeiro do mundo missionário, países menores e mais pobres que o Brasil, como a Argentina, por exemplo, enviam e sustentam mais missionários que nós. A Coréia do Sul possui mais de doze mil missionários em mais de cento e cinqüenta países do mundo, e o número tende a crescer. O cuidado da igreja coreana com seus missionários é muito superior ao cuidado recebido pelos missionários brasileiros. É preciso humildade, paixão, seriedade, e desejo de fazer missões de forma correta.

Sei que meu clamor pouco impressionará alguns, irritará a outros, mas é apenas um clamor escrito no sofá de casa, com minhas filhas aos pés, cada uma nascida em um país diferente, são também filhas da missão, mas que espero que possa despertar a paixão e o pensamento de outros. Quanto a mim, continuarei na missão, venha o que vier, continuarei a sonhar e trabalhar pela conversão do mundo, continuarei a chorar quando ouvir Mateus 28:19-20 e ao ler histórias missionária como a de Adoniram Judson que li mais uma vez hoje pela manhã.

Até que todos tenham ouvido

Fonte: http://cuidadointegral.info

Sofrendo pelo nome de Cristo

Perseguição no mundo contemporâneo

Autor: Alderi Souza de Matos

Uma realidade chocante, porém pouco divulgada no mundo ocidental, é o grande aumento da intolerância religiosa contra cristãos em muitas regiões do mundo. A experiência da perseguição não é novidade na história do cristianismo: o próprio Jesus foi objeto de ódio religioso e os seus seguidores desde o início sofreram ataques verbais e físicos dos seus adversários. Os três primeiros séculos da igreja ficaram conhecidos como “a era dos mártires”. Após a ascensão do imperador Constantino, a igreja experimentou maior segurança. Todavia, dentro de pouco tempo surgiu um novo e terrível fenômeno: a intolerância de cristãos contra cristãos. No fim do período antigo e na Idade Média, grupos como donatistas, priscilianos, monofisitas, cátaros, valdenses e hussitas sofreram repressão por sua condição de hereges. Durante a Reforma Protestante não foi diferente. Muitos adeptos do novo movimento experimentaram confisco de bens, exílio, tortura e execuções cruéis em diferentes partes da Europa. Após o advento do Iluminismo, surgiu uma atmosfera mais tolerante. Todavia, a partir do século 19, quando um intenso esforço missionário levou a fé cristã a todos os recantos do mundo, foram lançadas as sementes para novas e violentas manifestações de agressividade anticristã. No século 20, os fenômenos combinados do colonialismo, da pobreza e do fanatismo produziram em muitos países do terceiro mundo uma fortíssima hostilidade contra suas populações cristãs. E esse fenômeno só tem crescido nos dias atuais. A Missão Portas Abertas, uma organização que objetiva servir os cristãos perseguidos, promove todos os anos, logo depois de Pentecostes, o “domingo da igreja perseguida”. Com base em levantamentos cuidadosos, essa missão calcula que entre 80 e 120 milhões de cristãos são objeto de intolerância. Portas Abertas mantém uma lista atualizada dos cinquenta países mais hostis ao cristianismo. A lista é encabeçada pela Coreia do Norte, o Irã e a Arábia Saudita. Outros países, embora não estejam entre os primeiros, nos últimos anos foram palco de alguns dos casos mais deploráveis de intolerância e perseguição aberta. Tais casos são descritos brevemente a seguir, como exemplos do que tem ocorrido em pleno século 21.

Índia
A Índia está em 26º lugar no ranking dos países com maior intolerância contra cristãos. É o segundo país mais populoso da terra, com 1,2 bilhão de habitantes, e apresenta grande diversidade de culturas, idiomas e religiões. Destas, as principais são o hinduísmo (80,5% da população), o islamismo (13,4%), o cristianismo (2,3%) e o siquismo (1,9%). Os cristãos se dividem em católicos, protestantes e independentes (pentecostais e outros). Ironicamente, trata-se de uma nação democrática em que existe liberdade de culto e de propaganda. Todavia, alguns estados possuem leis anticonversão e são omissos em reprimir manifestações de intolerância. Grande parte da perseguição é promovida por alas radicais de hindus e muçulmanos. Em dezembro de 2007, irrompeu uma terrível onda de violência no estado de Orissa, na costa leste da Índia. Oito meses depois, o assassinato de um líder hindu e a falsa acusação de que o delito teria sido cometido por cristãos levaram a um massacre sem precedentes. Muitos cristãos de Orissa e estados vizinhos foram alvo de incêndio criminoso, assalto, agressão física e até assassinato. Dezoito mil ficaram feridos e 50 mil fugiram de suas casas, abrigando-se em campos de refugiados do governo. Dezenas de cristãos foram mortos, tendo sido destruídas cerca de 4.500 casas e 150 templos. O governo foi omisso em prender os criminosos. Muitos cristãos temem voltar para suas vilas e serem forçados a se converter ao hinduísmo. Há refugiados que não têm para onde voltar, pois suas antigas propriedades foram tomadas.

Sudão
A situação desse país é muito diferente, porque nele o governo é diretamente responsável pelo que acontece com os cristãos. Localizado no nordeste da África, o Sudão é o maior país do continente. Seu território se divide em duas regiões bem distintas: uma área desértica ao norte, onde predomina o islã (70% da população), e uma área de savanas e florestas tropicais ao sul, na qual são maioria cristãos e animistas. Desde 1983, o país vive uma guerra civil cujo estopim foi a introdução da “sharia” (lei islâmica) em âmbito nacional. Isso desagradou a população do sul, que se revoltou contra o norte e procura a separação. O governo, localizado em Cartum, no norte, e liderado pelo presidente Umar Hassan Ahmad al-Bashir, não aceita a separação, visto que as riquezas naturais do país, como o petróleo, se encontram na parte sul. O conflito entre as duas regiões já causou a morte de 1,5 milhão de pessoas.

Os cristãos somam cerca de 8 milhões (20% da população do Sudão), dos quais 5,5 milhões vivem no sul. Além de muito pobres, eles sofrem com as lutas entre os militares e os rebeldes. Os combatentes desalojam a população civil, roubam os rebanhos e incendeiam vilarejos. Apesar dos esforços das Nações Unidas, pouca ajuda chega aos refugiados famintos, pois o governo retém as remessas humanitárias como retaliação pelos ataques das forças rebeldes. Além disso, um movimento rebelde de Uganda também tem atacado vilas no sul do Sudão. Nessa situação caótica, os cristãos sofrem deslocamentos forçados, fome, destruição de casas e outras dificuldades. Espera-se para este ano ou o próximo um referendo sobre a independência da região, o que poderá aliviar a situação da população cristã.

Indonésia
Com 237 milhões de habitantes, esse imenso arquipélago do sudeste asiático abriga a maior população islâmica do mundo. Os muçulmanos somam 78% da população e os cristãos, 17%. A Constituição reconhece a liberdade religiosa e o governo geralmente a respeita. No entanto, a maioria islâmica exerce forte pressão para que sejam restringidas as atividades das igrejas. Além disso, os radicais muçulmanos incitam a violência contra os cristãos e pressionam para que a lei islâmica seja implementada no país. As pessoas de minorias religiosas, como os cristãos, sofrem forte discriminação, especialmente os convertidos vindos do islamismo.

A Indonésia tem uma longa tradição de violência religiosa entre muçulmanos e cristãos. Entre 1999 e 2002, as regiões de Ambon e Poso se transformaram em campos de batalha que deixaram mais de mil mortos e deslocaram milhares de pessoas. Mais de duzentas igrejas foram incendiadas e destruídas. Em 2005, num caso especialmente trágico, três meninas cristãs foram decapitadas e uma quarta gravemente ferida por um bando de extremistas, ao saírem de uma escola cristã em Poso. Nos últimos anos os cristãos têm sofrido mais pressão à medida que cresce a influência islâmica no país. Pastores têm sido assassinados e templos incendiados, enquanto as autoridades se veem impotentes para coibir a violência, principalmente em regiões afastadas.

Conclusão
As perseguições contra o cristianismo no passado empalidecem diante das ocorrências da atualidade. Nunca houve tanta repressão, destruição e vítimas como nos dias atuais. E o mais chocante de tudo é a insensibilidade e indiferença da mídia e dos governos ocidentais em relação ao problema. O temor de ferir suscetibilidades, o pragmatismo político e econômico e a diplomacia contaminada por influências ideológicas fazem com que vozes influentes se calem diante das violações dos direitos humanos dos cristãos em tantos países. No meio de tantas provações, a igreja persevera nesses lugares e as histórias de sofrimento, fé e superação servem de inspiração e alerta para muitos crentes de outras terras.


• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil” ( asdm@mackenzie.com.br ).

Fonte: www.ultimato.com.br