"Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência..."

E a paixão missionária onde foi parar?

Por: Alex Branco

Meu chamado missionário deu-se na adolescência. Em nossa igreja sempre havia missionários que por lá passavam e contavam-nos suas experiências adquiridas nas mais diversas partes do mundo. Foi ali, no convívio da igreja, que ouvi falar do mundo islâmico, budista, hindu e comunista. No seio da igreja sonhei com os campos missionários e com a possibilidade de glorificar a Deus com minha vida. Nesta ocasião era praticamente impossível ler Mateus 28:19-20 sem as lágrimas virem aos olhos.

O tempo passou, o adolescente cresceu e o sonho tornou-se realidade. Tive o imenso privilégio de servir ao Senhor no mundo hindu por vários anos e nos últimos sete anos num contexto pós-cristão da Europa. Minha paixão pela missão continua a mesma, apenas mais amadurecida, já com alguns fios de cabelos brancos, e ainda hoje é impossível ouvir alguém falar de missões entre outros povos sem que as lágrimas me venham aos olhos.

Nestes quase quinze anos fora do Brasil e envolvido com a obra missionária, foram raras as oportunidades de voltar à “pátria amada”. No entanto, a cada retorno foi possível notar um esfriamento cada vez maior da paixão missionária. Lembro-me da ocasião em que as pessoas nos procuravam desejosas de saber sobre os povos do mundo e das necessidades missionárias. Já na minha última viagem ao Brasil a pergunta mais comum era: “Europa, interessante, lá é bom mesmo para se ganhar dinheiro?” Aliás, acredito que as necessidades missionárias da Europa sejam as mais desconhecidas da igreja brasileira. Quantos brasileiros sabem das milhares de cidades da Europa sem uma única igreja cristã? Só no pequeno Portugal são quase cinqüenta cidades sem igrejas.

O sentimento que tenho é que a igreja brasileira assumiu a sua responsabilidade, mas perdeu a paixão. Da última vez que lá estive raras eram as pessoas interessadas em falar sobre missões. Faz-se missões, mas não mais refletimos sobre o assunto. O resultado é um distanciamento daquilo que hoje acontece no mundo missionário, suas novas tendências, os novos alvos e, acima de tudo, nada se fala dos mais de doze mil povos não alcançados e muitos ficam espantados ao ouvir que ainda hoje missionários e cristãos são mortos ou lançados em prisões por causa do Evangelho, para estes, estas coisas de perseguição não passam de alguns relatos do Novo Testamento.

Hoje o missionário é um problema que a igreja brasileira tenta administrar dentro das suas prioridades locais. O assunto administra-se da maneira mais conveniente possível, conveniente para a igreja local, não para o missionário. Nós, brasileiros, gostamos da glória da missão, não do custo da missão. Gostamos de dizer que o “Brasil é o Celeiro do Mundo”, mas nos esquecemos de dizer que os missionários brasileiros estão entre os que menos recursos recebem de suas igrejas, e que raríssimos são os casos dos que possuem algum plano de aposentadoria.

Lembro-me da ocasião em que nos reunimos na Noruega. Éramos um grupo de cinqüenta brasileiros envolvidos com missões, sentíamo-nos o grupo mais especial do mundo, até que ouvimos o reitor da faculdade missionária da Noruega que, com detalhes e aquela humildade típica dos noruegueses, falou-nos como fazer missões de verdade, e contou-nos sobre a missão desenvolvida por missionários noruegueses em Madagascar ao longo dos anos, onde estão sepultados ao menos mil e quinhentos missionários noruegueses, mortos pelos mais variados motivos. A igreja brasileira ainda está muito longe da realidade do custo da missão.

Outra coisa importante a aprender com os nórdicos sobre como fazer missões está no tratamento que recebe o missionário norueguês. Em sua maioria possuem os mesmos direitos sociais e financeiros dos pastores locais. Isto significa que, após uma determinada idade, os missionários poderão contar com uma pensão vitalícia que garantirá o sustento na velhice e a garantia de provisão para a família. No caso brasileiro, a menos que o missionário faça contribuições por conta própria para a previdência social ou privada, chegará à velhice em uma situação constrangedora. Mas como a igreja brasileira ainda é muito nova no seu envolvimento missionário, pouco se pensa sobre este assunto. Não posso deixar de elogiar algumas juntas missionária e igrejas que agem diferente nesta questão e investem no futuro de seus obreiros.

Como podemos ver, a questão da missão é muito mais séria que enviar cinqüenta reais ou mil reais por mês para um missionário no campo. É uma questão de consciência missionária, de real envolvimento com todos os aspectos da vida do missionário, afinal, “digno é o trabalhador do seu salário” (Lc 10:7). Lembro-me da irmã Hanna, uma missionária aposentada, membro da nossa igreja na Noruega que, depois de mais de quarenta anos de serviço missionário na África, gozava de sua velhice a tocar piano em casa e nos lares de idosos que ela visitava semanalmente, como uma forma de manter-se ativa. Um dia numa conversa com ela fiquei surpreendido ao ouvir desta irmã que todos os seus mantenedores que a apoiaram quando ela saiu para missões na África, os que ainda viviam, continuavam a lhe enviar ofertas mensais, mantendo um lindo relacionamento entre mantenedor e missionário por mais de cinqüenta anos. Será que no Brasil algum dia ouviremos histórias assim de nossos missionários? No meu caso, um anos após ter saído para Índia, dos que se comprometeram comigo, 60% acabaram por desistir.

É tempo de repensar nosso envolvimento missionário, restaurar a paixão perdida, buscar aprender com outros povos como fazer missões de forma efetiva e duradora. O orgulho missionário brasileiro de nada serve, só nos atrapalha. Não somos o celeiro do mundo missionário, países menores e mais pobres que o Brasil, como a Argentina, por exemplo, enviam e sustentam mais missionários que nós. A Coréia do Sul possui mais de doze mil missionários em mais de cento e cinqüenta países do mundo, e o número tende a crescer. O cuidado da igreja coreana com seus missionários é muito superior ao cuidado recebido pelos missionários brasileiros. É preciso humildade, paixão, seriedade, e desejo de fazer missões de forma correta.

Sei que meu clamor pouco impressionará alguns, irritará a outros, mas é apenas um clamor escrito no sofá de casa, com minhas filhas aos pés, cada uma nascida em um país diferente, são também filhas da missão, mas que espero que possa despertar a paixão e o pensamento de outros. Quanto a mim, continuarei na missão, venha o que vier, continuarei a sonhar e trabalhar pela conversão do mundo, continuarei a chorar quando ouvir Mateus 28:19-20 e ao ler histórias missionária como a de Adoniram Judson que li mais uma vez hoje pela manhã.

Até que todos tenham ouvido

Fonte: http://cuidadointegral.info

Sofrendo pelo nome de Cristo

Perseguição no mundo contemporâneo

Autor: Alderi Souza de Matos

Uma realidade chocante, porém pouco divulgada no mundo ocidental, é o grande aumento da intolerância religiosa contra cristãos em muitas regiões do mundo. A experiência da perseguição não é novidade na história do cristianismo: o próprio Jesus foi objeto de ódio religioso e os seus seguidores desde o início sofreram ataques verbais e físicos dos seus adversários. Os três primeiros séculos da igreja ficaram conhecidos como “a era dos mártires”. Após a ascensão do imperador Constantino, a igreja experimentou maior segurança. Todavia, dentro de pouco tempo surgiu um novo e terrível fenômeno: a intolerância de cristãos contra cristãos. No fim do período antigo e na Idade Média, grupos como donatistas, priscilianos, monofisitas, cátaros, valdenses e hussitas sofreram repressão por sua condição de hereges. Durante a Reforma Protestante não foi diferente. Muitos adeptos do novo movimento experimentaram confisco de bens, exílio, tortura e execuções cruéis em diferentes partes da Europa. Após o advento do Iluminismo, surgiu uma atmosfera mais tolerante. Todavia, a partir do século 19, quando um intenso esforço missionário levou a fé cristã a todos os recantos do mundo, foram lançadas as sementes para novas e violentas manifestações de agressividade anticristã. No século 20, os fenômenos combinados do colonialismo, da pobreza e do fanatismo produziram em muitos países do terceiro mundo uma fortíssima hostilidade contra suas populações cristãs. E esse fenômeno só tem crescido nos dias atuais. A Missão Portas Abertas, uma organização que objetiva servir os cristãos perseguidos, promove todos os anos, logo depois de Pentecostes, o “domingo da igreja perseguida”. Com base em levantamentos cuidadosos, essa missão calcula que entre 80 e 120 milhões de cristãos são objeto de intolerância. Portas Abertas mantém uma lista atualizada dos cinquenta países mais hostis ao cristianismo. A lista é encabeçada pela Coreia do Norte, o Irã e a Arábia Saudita. Outros países, embora não estejam entre os primeiros, nos últimos anos foram palco de alguns dos casos mais deploráveis de intolerância e perseguição aberta. Tais casos são descritos brevemente a seguir, como exemplos do que tem ocorrido em pleno século 21.

Índia
A Índia está em 26º lugar no ranking dos países com maior intolerância contra cristãos. É o segundo país mais populoso da terra, com 1,2 bilhão de habitantes, e apresenta grande diversidade de culturas, idiomas e religiões. Destas, as principais são o hinduísmo (80,5% da população), o islamismo (13,4%), o cristianismo (2,3%) e o siquismo (1,9%). Os cristãos se dividem em católicos, protestantes e independentes (pentecostais e outros). Ironicamente, trata-se de uma nação democrática em que existe liberdade de culto e de propaganda. Todavia, alguns estados possuem leis anticonversão e são omissos em reprimir manifestações de intolerância. Grande parte da perseguição é promovida por alas radicais de hindus e muçulmanos. Em dezembro de 2007, irrompeu uma terrível onda de violência no estado de Orissa, na costa leste da Índia. Oito meses depois, o assassinato de um líder hindu e a falsa acusação de que o delito teria sido cometido por cristãos levaram a um massacre sem precedentes. Muitos cristãos de Orissa e estados vizinhos foram alvo de incêndio criminoso, assalto, agressão física e até assassinato. Dezoito mil ficaram feridos e 50 mil fugiram de suas casas, abrigando-se em campos de refugiados do governo. Dezenas de cristãos foram mortos, tendo sido destruídas cerca de 4.500 casas e 150 templos. O governo foi omisso em prender os criminosos. Muitos cristãos temem voltar para suas vilas e serem forçados a se converter ao hinduísmo. Há refugiados que não têm para onde voltar, pois suas antigas propriedades foram tomadas.

Sudão
A situação desse país é muito diferente, porque nele o governo é diretamente responsável pelo que acontece com os cristãos. Localizado no nordeste da África, o Sudão é o maior país do continente. Seu território se divide em duas regiões bem distintas: uma área desértica ao norte, onde predomina o islã (70% da população), e uma área de savanas e florestas tropicais ao sul, na qual são maioria cristãos e animistas. Desde 1983, o país vive uma guerra civil cujo estopim foi a introdução da “sharia” (lei islâmica) em âmbito nacional. Isso desagradou a população do sul, que se revoltou contra o norte e procura a separação. O governo, localizado em Cartum, no norte, e liderado pelo presidente Umar Hassan Ahmad al-Bashir, não aceita a separação, visto que as riquezas naturais do país, como o petróleo, se encontram na parte sul. O conflito entre as duas regiões já causou a morte de 1,5 milhão de pessoas.

Os cristãos somam cerca de 8 milhões (20% da população do Sudão), dos quais 5,5 milhões vivem no sul. Além de muito pobres, eles sofrem com as lutas entre os militares e os rebeldes. Os combatentes desalojam a população civil, roubam os rebanhos e incendeiam vilarejos. Apesar dos esforços das Nações Unidas, pouca ajuda chega aos refugiados famintos, pois o governo retém as remessas humanitárias como retaliação pelos ataques das forças rebeldes. Além disso, um movimento rebelde de Uganda também tem atacado vilas no sul do Sudão. Nessa situação caótica, os cristãos sofrem deslocamentos forçados, fome, destruição de casas e outras dificuldades. Espera-se para este ano ou o próximo um referendo sobre a independência da região, o que poderá aliviar a situação da população cristã.

Indonésia
Com 237 milhões de habitantes, esse imenso arquipélago do sudeste asiático abriga a maior população islâmica do mundo. Os muçulmanos somam 78% da população e os cristãos, 17%. A Constituição reconhece a liberdade religiosa e o governo geralmente a respeita. No entanto, a maioria islâmica exerce forte pressão para que sejam restringidas as atividades das igrejas. Além disso, os radicais muçulmanos incitam a violência contra os cristãos e pressionam para que a lei islâmica seja implementada no país. As pessoas de minorias religiosas, como os cristãos, sofrem forte discriminação, especialmente os convertidos vindos do islamismo.

A Indonésia tem uma longa tradição de violência religiosa entre muçulmanos e cristãos. Entre 1999 e 2002, as regiões de Ambon e Poso se transformaram em campos de batalha que deixaram mais de mil mortos e deslocaram milhares de pessoas. Mais de duzentas igrejas foram incendiadas e destruídas. Em 2005, num caso especialmente trágico, três meninas cristãs foram decapitadas e uma quarta gravemente ferida por um bando de extremistas, ao saírem de uma escola cristã em Poso. Nos últimos anos os cristãos têm sofrido mais pressão à medida que cresce a influência islâmica no país. Pastores têm sido assassinados e templos incendiados, enquanto as autoridades se veem impotentes para coibir a violência, principalmente em regiões afastadas.

Conclusão
As perseguições contra o cristianismo no passado empalidecem diante das ocorrências da atualidade. Nunca houve tanta repressão, destruição e vítimas como nos dias atuais. E o mais chocante de tudo é a insensibilidade e indiferença da mídia e dos governos ocidentais em relação ao problema. O temor de ferir suscetibilidades, o pragmatismo político e econômico e a diplomacia contaminada por influências ideológicas fazem com que vozes influentes se calem diante das violações dos direitos humanos dos cristãos em tantos países. No meio de tantas provações, a igreja persevera nesses lugares e as histórias de sofrimento, fé e superação servem de inspiração e alerta para muitos crentes de outras terras.


• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil” ( asdm@mackenzie.com.br ).

Fonte: www.ultimato.com.br