"Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência..."

Lições e desafios do Congresso de Cape Town - Lausanne



O 3º Congresso Lausanne de Evangelização Mundial – CapeTown 2010, mais conhecido como Lausanne 3, foi inesquecível em muitos aspectos. Quem esteve lá não pode fazer uma análise fria, sem emoção. Era uma parte significativa da Igreja de Cristo, celebrando a comunhão e louvando ao Deus que dá sentido à vida. Eram histórias verdadeiras de cristãos e cristãs que estão na linha de frente em lugares extremamente difíceis, enfrentando o sofrimento e a morte, lutando contra a injustiça, levando esperança e o evangelho de Jesus Cristo.

Fomos agraciados por momentos especiais, como quando a comissão brasileira pediu perdão aos líderes africanos pela dor da escravidão infligida ao seu povo. Em meio a lágrimas, tivemos a certeza de que Deus havia nos dado um presente inesperado. Ou quando uma norte-coreana de 18 anos contou sua história de fé e de como seu pai foi morto por anunciar essa mesma fé. O foco cristocêntrico, a valorização da história e a beleza litúrgica do culto de encerramento superaram nossas expectativas.

Lausanne 3 é inesquecível porque se propõe a ser um movimento global duradouro, o que não é fácil. Enquanto as estatísticas mostram que a igreja cristã cresce, as dificuldades não diminuem. As pressões do mundo pós-moderno, as diversas faces da igreja em cada continente, o acirramento da perseguição religiosa, a complexidade da “tarefa inacabada”, as desigualdades sociais e de gênero e principalmente os próprios pecados da igreja cristã são desafios complexos e arriscados.

A Igreja Cristã pode se beneficiar desse movimento, que naturalmente não representa integralmente o Corpo de Cristo. A multiforme sabedoria de Deus vai além. O Espírito Santo sopra aonde quer. Ultimato reconhece a importância do Movimento Lausanne e, nas páginas seguintes, quer aproximar a igreja espalhada neste mundo e chamar a igreja brasileira a participar.

CINCO DESAFIOS de CAPE TOWN - LAUSANNE:

1. Não dá para cumprir o chamado missionário sem o árduo esforço da unidade

Uma igreja desunida é uma igreja com pouca relevância, que não sente profundamente a dor do outro, não enxerga as chagas do próximo. Seu ensino sobre a vida parece frio e superficial, porque seu olhar é fechado em si mesmo. Essa verdade é relevante tanto para as igrejas locais -- que precisam desenvolver ações em parceria que proclamem com mais consistência o evangelho da reconciliação --, quanto para a chamada “igreja global” -- que precisa, por exemplo, olhar com mais compaixão para os cristãos que vivem em contextos de evidente perseguição religiosa.

Lausanne 3 dedicou o último dia à temática “parcerias”. Porém, foi nos momentos mais espontâneos, como as discussões nas mesas e as conversas nos corredores, que o tema da unidade da igreja foi visto, não como uma simples questão de estratégia, de firmar parcerias, mas como uma expressão da riqueza teológica do trabalho em conjunto e da união em Cristo. Nesses espaços, a unidade foi vista como um verdadeiro anseio dos presentes e como o elo que pode ligar os grandes desafios da igreja.

Mas por que é tão difícil manter a unidade? Lausanne 3 não respondeu a essa pergunta; porém, nos deu algumas pistas. Como diz Vaughan Roberts, “a unidade de Cristo não pode ser criada, é uma ação do Espírito. Por meio da verdade do evangelho, do Espírito, somos o Corpo de Cristo. Deus pede que vivamos de maneira digna da vocação a que fomos chamados. As divisões não são por diferenças teológicas, mas por orgulho”. Outra pista foi dada pelo teólogo Ronald Sider em uma conversa informal: “O que eu gostaria de ver como resultado deste congresso é um equilíbrio maior de cooperação financeira entre todos nós”.

Ao olharmos para a igreja brasileira, a necessidade de unidade parece ainda mais gritante. Alguns brasileiros afirmaram que a comitiva nacional foi uma amostra do que é a igreja: alegre e numerosa, mas pouco organizada e meio sem rumo (cerca de cem brasileiros participaram do congresso). Ao refletir sobre a crise de liderança cristã no país, Robinson Cavalcanti norteou o caminho: “Precisamos de um choque de humildade”. Não podemos considerar a questão da unidade cristã sem refletir sobre o papel dos nossos líderes. Sendo assim, o conselho do “choque de humildade” é um passo igualmente relevante para termos uma igreja mais unida. Não é à toa que no penúltimo dia, dedicado ao tema “integridade”, o britânico Chris Wright exortou os presentes a um autoexame sincero diante das idolatrias atuais: o poder (orgulho), a popularidade (sucesso) e a prosperidade (ganância). “Precisamos de um retorno radical ao Senhor. Precisamos ouvir a voz dos profetas, dos apóstolos e de Jesus Cristo. Quem precisa se arrepender primeiro não são os de fora, mas os de dentro.”

2. A verdade é importante e não anda sozinha

Assim como um náufrago precisa de terra firme, é ingênuo achar que nossa geração não precisa de -- e não clama por -- referências claras e absolutas. No entanto, em um mundo relativista, pluralista e indiferente a questões dogmáticas, como defender a verdade única do evangelho sem perder a dimensão pessoal, amorosa e humilde daquele que é a própria verdade, Jesus Cristo?

Lausanne 3 foi ousado ao nos provocar com esse tema logo no primeiro dia, diante de um cenário tão diversificado e do risco concreto de ressuscitar fundamentalismos e simplismos. As primeiras palavras do escritor Os Guinness foram fortes: “Oro para que não haja dúvidas de que a verdade é uma questão fundamental e decisiva para este congresso e para nós, como evangélicos. A verdade não é essencialmente uma questão filosófica, mas teológica. Deus é verdade, o seu Espírito é o Espírito da verdade; sua Palavra é verdade, nossa fé é verdade, e, a menos que sejamos seguros e firmes quanto à verdade, este congresso pode terminar agora”.

À medida que o congresso acontecia, o clamor por clareza na defesa da verdade (com referências seguras e norteadoras) foi sendo entendido também como a necessidade de uma verdade integradora, que reúna histórias de vida e esforço acadêmico. Daí a agradável surpresa de ouvir tantos testemunhos de pessoas simples de diversos lugares do mundo. As histórias de vida são tão importantes quanto as dissertações acadêmicas. Não que uma substitua a outra, mas elas podem se fortalecer mutuamente. Uma história de vida pode resgatar o academicismo de gabinete, sem amor e sem dor. A teologia pode dar luz às histórias de vida, trazendo-lhes um sentido histórico. Tudo isso, no entanto, não excluiu a justa crítica de alguns intelectuais brasileiros de que faltou profundidade e tempo para as discussões acadêmicas.

Por último, é importante assumir o desafio de refletir sobre a unidade à luz da verdade (e vice-versa). Mais do que defender uma ou outra com unhas e dentes, a igreja cristã precisa dispor-se a fazer sérias reflexões sobre como conjugá-las harmoniosamente. Uma precisa da outra. Assim o evangelho será compreendido e digno de confiança e também amado e seguido.

3. A igreja é global e as antigas categorias para delimitá-la precisam ser atualizadas à luz da globalização

O fenômeno da globalização ficou evidente em vários aspectos do congresso. O evento foi mundial; a tecnologia permitiu que 100 mil pessoas o acompanhassem pela internet. Ouvimos experiências de igrejas europeias que já não são tão homogêneas, mas têm nos bancos gente de diversas nacionalidades e provenientes de países pobres. Além desses aspectos, Lausanne 3 nos ajudou a pensar que a igreja cristã não pode mais ser desenhada simplesmente em termos geográficos. Como lembra o pastor e cientista social Orivaldo Pimentel, “não se pode pensar a igreja com as mesmas categorias de antes. Não mais em termos de Norte, Sul, Leste e Oeste, mas sim da presença global num mundo globalizado”. Isso exige de nós novas formas de pensar a presença da igreja. O que significa ser uma comunidade global, mas que constrói a identidade localmente? Como devemos comunicar o evangelho nesse contexto? Como deve ser o nosso testemunho? Quais as oportunidades de serviço? Os efeitos desse fenômeno devem ser analisados a longo prazo, já que eles não são tão óbvios quanto seus sintomas.

Outra dimensão importante da globalização, lembrada mais claramente pelos teólogos René Padilla e Samuel Escobar no quarto dia do congresso, é a econômica. Padilla considerou a pobreza gerada pela globalização como um dos grandes desafios da igreja e achou que o assunto foi pouco abordado por Lausanne 3. Ele já havia aprofundado a mesma ideia no artigo “From Lausanne 1 to Lausanne 3”, publicado no “Journal of Latin American Theology”, a revista da Fraternidade Teológica Latino-Americana, distribuída durante o evento. “Cristãos conscientes não podem ignorar a extrema pobreza de milhões de pessoas, gerada pelo atual sistema econômico global controlado, em grande medida, por uma classe corrupta transnacional.”

4. O texto bíblico e a oração são riquezas incalculáveis

Esses dois recursos nos renovam quando as circunstâncias exigem algo mais do que argumentos humanos. São fonte de poder, de arrependimento, de amor e de sabedoria; são canais da obra do Espírito Santo no espírito humano. Abandonar essas duas práticas ou deixá-las em segundo plano é perder-se na caminhada. Dois momentos no congresso foram simbólicos quanto a isso:

- Perdão regado a oração -- no último dia a comissão brasileira, liderada pelo pastor Key Yuasa, tomou a iniciativa de escrever uma carta pedindo perdão à igreja africana pela triste história de escravidão no Brasil. Um dos momentos mais emocionantes foi quando, após a leitura da carta, durante a reunião regional da África, os líderes africanos pediram ao grupo de sete brasileiros que representava a comissão que ficassem de joelhos. Em meio a lágrimas, os irmãos da África oraram longamente anunciando o perdão aos brasileiros; enquanto oravam, lembravam o sofrimento vivido por mulheres e filhos, sem maridos e pais, que foram trazidos cativos para o Brasil. Espontaneamente, um grupo de africanos foi até a reunião da comissão brasileira e orou novamente por nós. Nada poderia traduzir melhor e reunir os sentimentos de todos do que a oração. O perdão foi regado pela beleza da oração.

- Estudos bíblicos indutivos -- todas as manhãs, nos reuníamos em grupos de sete pessoas e estudávamos juntos a carta de Paulo aos Efésios. Por diversas vezes, nos vimos desarmados pela riqueza da Palavra de Deus. Apesar do pouco tempo, cada momento de estudo indutivo nos fazia assumir novamente a responsabilidade para com o evangelho e o mundo, e nos permitia conhecer histórias de irmãos de diversos países. Experimentamos uma unidade misteriosa, movida pela Palavra, baseada nos relacionamentos, que gera alegria, respeito e amor pelo outro. Como disse o teólogo Samuel Escobar, “foi o momento mais rico do congresso”.

O texto bíblico e a oração são pilares para a compreensão orgânica da igreja de Cristo.

5. Os jovens são a grande força missionária

Coragem, idealismo, paixão por Cristo e pelas pessoas -- esses são os recursos necessários para a mudança de geração, sem perder a herança histórica. Valorizar e reconhecer a juventude nos ajuda a celebrar o Corpo de Cristo, de tantas idades, e a discernir melhor as muitas faces e a velocidade do nosso tempo.

Além disso, por sua grandiosidade e relevância, Lausanne 3 não pode ser assimilado a curto prazo. Os jovens são personagens fundamentais para que as mais significativas mudanças aconteçam dentro e fora da igreja de Cristo. Não é à toa que 40% dos participantes eram pessoas com idade entre 20 e 40 anos. O esforço dos organizadores para que houvesse, de fato, uma representatividade de jovens líderes reforça a esperança de que o evangelho continuará sendo anunciado em todos os lugares, sem deixar de enfrentar as principais questões contemporâneas.

Ao mesmo tempo, essa evidência aumenta a responsabilidade dos mais velhos. É preciso apoiar e pastorear nossos jovens nos mais desafiadores contextos: nas periferias das grandes cidades, nas igrejas, nas escolas, nas universidades e outros lugares. Juntos, jovens e velhos precisam caminhar em alegria e em confiança. Enquanto os jovens devem honrar a sabedoria dos mais velhos, estes devem permitir que aqueles liderem projetos e comunidades até então sob suas responsabilidades.

Fonte: Ultimato