"Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência..."

Missão Integral na Igreja - Reflexões sobre o Pacto de Lausanne

"6. A IGREJA E A EVANGELIZAÇÃO: Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas." (Pacto de Lausanne)


Leia o restante do Pacto de Lausanne nas publicações semanais de agosto a novembro de 2012, clicando aqui.

MISSÃO INTEGRAL NA IGREJA

Por Selma Frossard

Em certa ocasião, Jesus observou a multidão e percebendo-a aflita e cansada, "como ovelhas sem pastor", compadeceu-se delas e disse aos discípulos para que rogassem a Deus que mandasse trabalhadores para a sua seara (Mateus 9:36 a 38). Trabalhadores que cuidassem delas, que orassem por e com elas, que as olhassem nos olhos e perguntassem: "O que queres que eu te faça?", que as tocassem, que as alimentassem e as curassem física, emocional e espiritualmente. Tudo em nome de Jesus!

Isso é evangelizar. É proclamar, é viver o reino de Deus.

Reino de Deus, dentro de nós

Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: "Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós" (Lucas 17:20-21). Dentro de vós! Aqui está a chave para a compreensão do que é importante para Deus. Não é o aparente; nem o visível. É o que está no coração, invisível, mas o real e o verdadeiro determinante de todas as nossas ações e reações. Trata-se da presença e da obra do Senhor Jesus atuando "dentro", no "meio" e "através" daqueles que crêem e confessam o Seu Nome. Dentro de cada cristão, entre os cristãos e através dos cristãos. O "através" é a igreja indo ao encontro das demandas e necessidades sociais, emocionais e espirituais do bairro, da comunidade, da cidade, da região, da nação onde está inserida e onde estão as pessoas.

Portanto, o grande desafio para a vivência de um cristianismo autêntico e verdadeiro é a expressão do Reino de Deus onde estamos, nos movemos e coexistimos (no tempo e no espaço). Este tempo se chama hoje e esse espaço se chama aqui. Como cristãos e como igreja somos chamados pelo Senhor Jesus a expressarmos o Seu reino aqui e agora.

Jesus, quando orou pelos discípulos, registrado em João 17, disse: "não vos peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal" (vs. 15.) Em outra ocasião, Jesus já havia dito: "e assim brilhe a vossa luz diante dos homens para que eles vejam as vossas obras e glorifiquem a Deus que está nos céus" (Mat.5:16). E mais ainda, "Vós sois o sal da terra... a luz do mundo..." (Mat. 5:13-14).

Constatamos, claramente, que Jesus enfatiza que a igreja não pode viver alienada e indiferente aos fenômenos e fatos que ocorrem na sociedade, causando exclusão, opressão e tantas outras formas de sofrimento humano. Não se trata de "envolvimento" com o mundo secular e seus valores; trata-se de, sem perder a identidade cristã, identificar-se com as dores pessoais e existenciais vividas e experenciadas pelas pessoas.

Enquanto igreja devemos estar inseridos no contexto contemporâneo, denunciando práticas de pecado, de injustiças e anunciando o amor e a misericórdia de Deus, através de palavras e ações concretas, pois a igreja é a voz profética da denúncia e do anúncio. A palavra de Deus, o evangelho de Cristo, o poder do Espírito Santo, a Graça de Cristo têm que ser anunciadas em confronto à denúncia do pecado que distancia o ser humano de Deus e o faz egoísta, maledicente, violento, etc.

O Exemplo da Igreja Primitiva

Quando nos voltamos para os primórdios da denominada "igreja primitiva" observamos que a primeira atitude daqueles irmãos foi "perseverarem unânimes na oração" (Atos 1:14). Isto significa que começaram pela UNIDADE e pela ORAÇÃO e, como conseqüência tornaram-se ousados no anúncio da Palavra (Atos 4:31); em todos havia abundante graça (Atos 4:33); não existiam necessitados entre eles (Atos 4:34) e cresciam em número contando com a simpatia de todo o povo (Atos 2:4)

Mas, constatamos também que a Igreja não ficou restrita em si mesma e em seu grupo (Atos 3). Ela posicionou-se claramente em suas convicções de fé e não se abalou frente às ameaças e perseguições, fazendo diferença em seu contexto e momento histórico. O primeiro milagre realizado através de irmãos da igreja primitiva foi a cura do deficiente físico (coxo, no termo bíblico), a partir do testemunho de Pedro e João.

Pedro, como legítimo representante do reino de Deus, não se limitou a dar-lhe um "paliativo", não buscou amenizar-lhe o sofrimento. Poderia simplesmente ter-lhe dado algum dinheiro ou alimento, manifestando uma atitude caritativa e assistencialista, mas não! Foi muito mais além: deu o que tinha de melhor!

Respeitando-lhe profundamente como pessoa humana, fitou-lhe os olhos (Atos 3:4), declarou a cura em nome de Jesus e estendeu-lhe a mão (Atos 3:7), ajudando-lhe a firmar-se sobre as pernas ainda tão frágeis. A liberdade física abriu, para aquele homem, as portas para a libertação espiritual. Como conseqüência desse milagre, Pedro pôde falar a uma multidão sobre Jesus, da qual muitos se converteram. (Atos 4:4)

Mesmo sendo presos e perseguidos, eles não desistiram. A igreja primitiva impactou o contexto em que estava inserida. Não se intimidou. Aceitou os desafios! Unida, foi em direção às mazelas sociais libertando, curando, salvando vidas e transformando realidades.

Com o crescimento da igreja houve a necessidade da primeira divisão de ministérios: o ministério da oração e da palavra (Atos 6:4) e o ministério do serviço (Atos 6:2-3). Esse fato nos chama a atenção, pois demonstram que, desde seus primórdios, a Igreja já tinha como base de trabalho a evangelização e a ação social, ambas realizadas por "homens cheios do Espírito Santo".

A Igreja atual

A igreja, em suas origens, não ficou restrita em si mesma, teve uma atuação verdadeira e incisiva no meio social. E hoje? A igreja dos tempos atuais impacta o mundo? Fazemos parte da nossa comunidade evangélica para servir ou para sermos servidos? Vemos a igreja como um "grande balcão de ofertas de bençãos" onde, como "clientes", nos achegamos todos os domingos para pegar a nossa, ou nos vemos engajados nela para contribuir, de alguma forma, para que o mundo e a sociedade sejam impactados por sua ação? Eu faço diferença na igreja onde congrego? E a igreja? Faz diferença na sociedade? Faz diferença na minha cidade? No meu estado? No Brasil? O exercício do servir no reino de Deus começa com essa inquietação: "Que diferença fazemos na nossa comunidade?"

O desafio da Missão Integral

Somos uma igreja que acredita e exerce a missão integral?

"A Igreja com missão integral encarna os valores do reino de Deus e testifica o amor e a justiça revelados em Jesus Cristo, no poder do Espírito, em função da transformação da vida humana em todas as suas dimensões, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário." (René Padilha).

A igreja que exerce o ministério integral é aquela que se propõe a comunicar o evangelho mediante tudo o que é, diz e faz! É a Igreja que serve; que produz diferença na vida espiritual e no contexto social do povo e da nação! É a igreja que atua por amor a Deus e às pessoas; fruto e resultado do amor de Deus, que um dia nos resgatou e fez o Seu Espírito habitar em nosso espírito.

É este amor que deve nos constranger a nos voltarmos para o outro, alvo também do amor de Deus, e ajudá-lo em suas necessidades físicas, emocionais e espirituais, com ações concretas. Enquanto igreja somos desafiados, pelos exemplos bíblicos, e pela realidade social que cotidianamente se apresenta aos nosso olhos, a nos posicionarmos nesse momento histórico, com todas as suas características e nuanças, como proclamadora do evangelho que "faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome; que liberta os encarcerados, abre os olhos aos cegos, levanta os abatidos, guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva." (Salmos 146: 7 a 9).

Como temos nos posicionado frente a esse desafio? Lembremo-nos que da obediência aos mandamentos de Deus, decorrerão bênçãos sem medida! (Isaías 58: 10 a 14)

Fonte: http://www.institutojetro.com/