"Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência..."

O Evangelho integral - Reflexões sobre o Pacto de Lausanne

Nos últimos meses foram publicados nesta página do Instituto Ágape os tópicos constantes do Pacto de Lausanne, com indicação dos textos bíblicos que fundamentaram as conclusões.

O Pacto foi elaborado na Suíça, em 1974, por representantes da Igreja de Cristo vindos de mais de 150 países, a partir de uma convocação de Billy Graham. Entre conferencistas estava estavam Samuel Escobar, Francis Schaeffer, Carl Henry e John Stott. Tratou-se de uma grande expressão de unidade e de amor pelo Senhor, pela Igreja e pelas nações.

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Publicaremos, além desta, outras três reflexões sobre o Pacto de Lausanne, em especial, sobre o tema da Missão Integral da Igreja.

A primeira delas é de Ed Renê Kivitz, pastor da Igreja Batista de Água Branca.


O EVANGELHO INTEGRAL

Por Ed Renê Kivitz


"O evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens".

[do Pacto de Lausanne]

. O paradigma da missão integral

O movimento da missão integral, ou teologia da missão integral, popularizado após o Congresso Internacional de Evangelização Mundial realizado em Lausanne, Suiça, em 1974, ganhou as ruas no Brasil somente depois que o Pacto de Lausanne foi publicado em português, dez anos após sua elaboração.

Desde então a expressão missão integral ficou restrita ao debate a respeito da relação entre evangelização e responsabilidade social, e chegou aos nossos dias tão reduzido que qualquer igreja que tem uma creche acredita estar “fazendo missão integral”.

Evidentemente isso é uma distorção do conceito em seus termos originais, até porque o Pacto de Lausanne é uma síntese de muitos outros documentos e de um riquíssimo debate teológico, pastoral e missional que correu pela América Latina, inclusive anos antes de Lausanne, como por exemplo no primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I), em Bogotá, 1969, e no surgimento da Fraternidade de Teólogos Latino-americanos (FTL), em Cochabamba, 1970.

O fato é que missão integral se tornou um conceito atrelado a ideias como (1) tarefa, pois é missão, e nesse sentido é menor do que o conceito de vivência ou experiência pessoal e comunitária da fé; (2) ação proselitista: ação que visa a conversão; (3) ação em favor dos pobres: diaconia, projetos sociais, atuação para mudanças das estruturas sociais; e a (4) polarização ou integração dos temas evangelização e responsabilidade social da igreja. Em outras palavras, o senso comum associa missão integral com evangelização somada à ação social, com uma perspectiva reducionista, apesar de lógica: comprometa-se com as causas da justiça social tanto para adquirir o direito de anunciar o Evangelho quanto para dar credibilidade às suas ações evangelísticas, pois o que importa mesmo é a conversão das pessoas e o crescimento da igreja.

Uma reflexão a respeito do conceito mais fundamental da teologia ou movimento da missão integral, expresso no tema central do Pacto de Lausanne, a saber, o evangelho todo para o homem todo, nos levará muito além das fronteiras definidas pela relação evangelização e responsabilidade social.

. O paradigma do evangelho integral

Para quebrar o paradigma missão integral = evangelização + responsabilidade social, proponho a substituição do termo missão integral por evangelho integral. Por evangelho integral quero dizer:

. o evangelho como lente para leitura da vida em sua totalidade

. o evangelho aplicado a todas as dimensões do humano

. o evangelho aplicado a todas as dimensões da vida

. o evangelho aplicado a todas as dimensões das relações humanas

. o evangelho aplicado a todas as dimensões da vida em sociedade

. o evangelho como realidade que afeta todas as dimensões do universo criado

Observe que alguém facilmente diria que um projeto social está relacionado com missão integral, mas dificilmente consideraria um encontro de casais realizado num hotel 5 estrelas como um projeto de missão integral. A organização de um centro comunitário é imediatamente percebido como ação de missão integral, mas um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoa e Adélia Prado exigiria muita explicação para que fosse associado à missão integral. O senso comum diria que o médico que dedica um final de semana para trabalho voluntário numa comunidade da periferia da cidade está fazendo missão integral, mas diria que o mesmo médico, cobrando R$ 700,00 por uma consulta em seu consultório, está realizando seu trabalho secular (não religioso), ou, no máximo, ganhando dinheiro para financiar projetos de missão integral.

É urgente ampliarmos o horizonte de reflexão. Extrapolar os limites definidos pelo debate evangelização/responsabilidade social e mergulharmos nas implicações das relações sagrado/profano e religioso/não religioso para a vivência da espiritualidade cristã pessoal e comunitária.

. O sagrado e o profano

Os termos sagrado e profano são amplamente discutidos pelos teóricos das ciências da religião, como Mircea Eliade, Émile Durkheim e Rudolf Otto. Para esses teóricos, sagrado é basicamente aquilo que porta uma manifestação do divino ou do transcendente, que Otto, por exemplo, chama de numinoso ou mysterium tremendum, e Eliade considera ser de uma ordem diferente ou de uma realidade que não pertence ao mundo natural. Nesse sentido, profano não está necessariamente associado a sujo, demoníaco, diabólico ou oposto a Deus. Profano é apenas e tão somente toda a ordem natural que não comporta uma manifestação ou relação com o divino, sobrenatural ou transcendente.

Em termos simples, a partir de uma perspectiva religiosa cristã, considero sagrado tudo aquilo que está de acordo com o caráter e os propósitos de Deus ou que a Deus esteja relacionado de maneira direta e intencional. Profano seria, então, aquilo que é neutro ou até mesmo está em oposição ao que é sagrado, isto é, aquilo que não está de acordo ou não está relacionado de maneira intencional e direta com o caráter e os propósitos de Deus.

A relação das expressões religioso/não religioso e sagrado/profano nos remete imediatamente à compreensão de que, assim como existe uma dimensão sagrada no espaço não religioso, existe também uma dimensão profana no espaço religioso.

O chamado cristão é para que todas as dimensões da vida sejam santificadas – tornadas sagradas, isto é, desenvolvidas e experimentadas de modo a se conformarem ao caráter e aos propósitos de Deus. O evangelho integral é a expressão que passo a usar para me referir ao desafio de sujeitar a Deus todas as dimensões da existência humana.

Voltando aos exemplos anteriores, um encontro de casais realizado num hotel 5 estrelas, um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoa e Adélia Prado, e a consulta médica ao valor de R$ 700,00 podem perfeitamente ser atividades sagradas, isto é, desenvolvidas de acordo com o caráter e os propósitos de Deus, sendo, portanto, vivências do evangelho integral.

. O espírito da coisa

A expressão evangelho integral representa melhor o espírito de Lausanne e do movimento da missão integral, a saber: o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens.

Fonte: EdReneKivitz.com